23 de dezembro de 2009

A lista

Ou o cabaz literário de Natal resultante do postado anterior, além do excitante e instrutivo Cozinho a Dobrar e Congelo:
A Ira de Deus, Edward Paice
A Sombra do que Fomos, Luis Sepúlveda
Barroco Tropical, José Eduardo Agualusa
Caim, José Saramago
Cemitério de Pianos, José Luís Peixoto
Jesusalém, Mia Couto
O Segredo de Cibele, Juliet Marillier
O Símbolo Perdido, Dan Brown

A ler:
A Lâmpada de Aladino, Luis Sepúlveda
O Espião de D. João II, Deana Barroqueiro

Irresistíveis (novos, a preço de segunda mão):
Deixem Passar o Homem Invisível, Rui Cardoso Martins (5€)
Depois de Morrer Aconteceram-me Muitas Coisas, Ricardo Adolfo (7,5€)

Desejados:
A Ilha, Giani Stuparich
A Morte de Bunny Munro, Nick Cave
Invisível, Paul Auster
O Mundo Branco do Rapaz-Coelho, Possidónio Cachapa
Os Espiões, Luis Fernando Verissimo
2666, Roberto Bolaño
Saber Perder, David Trueba
Trilogia Millennium de Stieg Larsson

7 de dezembro de 2009

Importa-se de repetir?

Como habitualmente, Dezembro, por ser o último do ano, é o mês para gastar 150 euros na compra de livros “técnicos”, gentilmente oferecidos pela empresa. Neste caso, porque também têm ciência, abrangeram o romance histórico, a ficção, a fantasia e… a culinária.

Ora, depois de aturada pesquisa, ela lá encontrou o título que andava à procura para poder poupar algum tempo na cozinha.

Cercámos a funcionária do balcão e eu perguntei:
- Queria saber se tem o livro Cozinho a Dobrar e Gongelo?

A coitada da criatura esboçou um leve sorriso pudico, matreiro e, depois de pedir delicadamente para repetir, respondeu:
- Nem vos vou dizer o que percebi…

Ninguém conseguiu evitar a gargalhada. Sem ofensa para os adeptos da modalidade não é difícil saber o que terá entendido a rapariga. Eu disse aquilo tão rápido e de tal maneira cortando o som à última sílaba (situação em que os portugueses são exímios) que deve ter soado qualquer coisa como "cuzinho a dobrar e com gel"…

1 de dezembro de 2009

O feriado religioso

Como acontecia de quando em vez naquela empresa, Javier, responsável ibérico da organização e natural de Madrid, telefonou a pedir tudo-e-mais-alguma-coisa completamente a despropósito. Lá fora, as nuvens carregadas do céu irromperam num pranto pardacento como o Outono invernal.

– Nunca mais é feriado, lamentou ela num grito mudo, bufando por cima da mão que tapava o bocal do aparelho para não ser ouvida. Do lado de cá da linha, o rosto da interlocutora, cujo carácter primava pela serenidade e discrição, exasperava num desatino de fazer dó, a tentar explicar que as coisas não podiam, nem deviam, ser feitas assim.

– Então envia-me isso amanhã logo cedo!, exigiu ele lá do meio da península.
– Amanhã é feriado aqui em Portugal, por isso só na quarta-feira.
Conformado, quis saber mais e peguntou:
– Ai sim? E o que é se festeja?

Após alguns segundos de hesitação, preferiu não lançar mais achas naquela fogueira e, lembrando-se do imberbe mimado que, séculos atrás, os tinha colocado naquela embaraçosa situação, arremessou:
– Acho que é religioso…

A mão apaziguadora da igreja calou o outro lado e, vencido, desligou.

25 de novembro de 2009

Breaking news

My girl and my house are now smoke (and ashtray) free!

20 de novembro de 2009

Descoberta

Uma equipa de cientistas do Centro de Genoma da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, conseguiu sequenciar o complexo genoma do milho.

O estudo sobre o cereal veio publicado hoje na revista Science e noutras publicações da especialidade, e nele se afirma que o dito tem 32 mil genes em apenas 10 cromossomas, enquanto os humanos apresentam 20 mil em 23.

Quando comer corn flakes ao pequeno-almoço lembrar-me-ei sempre desta descoberta e farei a correspondente vénia!

Em 2007, chegara-se já à conclusão que os macacos partilhavam 97,5 por centro dos genes com os humanos. Havia dúvidas?

19 de novembro de 2009

Quem quer ser bilionário...

...vai para a Índia, segundo conta a revista americana Forbes.

13 de novembro de 2009

Masturbação, a bem da nação!

"El placer está en tus manos" é o nome duma campanha publicitária – no valor de 14 mil euros e que integra cartazes, folhetos, divulgação através da Internet e sessões de esclarecimento – na qual a Junta da Extremadura, em Espanha, incita a juventude da região à masturbação. Como era de esperar quando se trata de assuntos do foro interno, a polémica instalou-se, conforme conta o Periodista Digital, nome aliás bem a propósito.

Há uns anos, ainda na era pré-Net, telemóvel, pager e demais tecnologias de ponta, as Páginas Amarelas apelavam ao mesmo objectivo de forma encapotada e davam-nos um conselho: "Vá pelos seus dedos". Mais recentemente, o leite Matinal, qual Narciso, enveredou também por este caminho ao perguntar: "Se eu não gostar de mim, quem gostará?".

Na coluna semanal que escreve no jornal i, a sexóloga Marta Crawford referiu há tempos, para quem ainda não sabe, que "masturbar significa acariciar, estimular ou esfregar os genitais (ou outra parte do corpo) com as mãos (ou objecto)" e que "a masturbação é um acto natural e saudável, e só deixa de o ser quando passa a ser obsessivo e repetitivo, e quando inibe o individuo de ter outros comportamentos na direcção do outro."

Acrescentou ainda: "A autoestimulação promove a libertação da tensão sexual, reduz o stresse, promove o prazer sexual e íntimo, prepara o indivíduo para o sexo vaginal, ou oral, promove a gratificação sexual sem penetração, alivia as dores menstruais, induz o sono, fortalece a tonicidade muscular de toda a zona pélvica, aumenta o fluxo sanguíneo a toda a zona genital, estimula a produção de endorfinas e melhora oxigenação do metabolismo, cria uma sensação de bem-estar, permite o tratamento de disfunções sexuais, etc.".

Por isso, toca a pôr mãos (ou os objectos) à obra e várias vezes ao dia. Afinal, como diz Woddy Allen, "masturbar-se é fazer amor com a pessoa de quem mais se gosta".

Nota: O título deste postado é duma bela canção dos Ena Pá 2000 e, tendo em conta que os petizes de hoje são os homens e as mulheres de amanhã, e queremo-los(las) sadios(as), parece-me perfeitamente adequado.

12 de novembro de 2009

A História é redonda como uma bola

Os memoráveis acontecimentos de Berlim (do postado em baixo) deram-se na noite de 9 de Novembro de 1989, na qual muitos dos habitantes da cidade e germânicos orientais acompanhavam ansiosos, em directo pela televisão, o clássico da Taça da outra Alemanha, a Federal, numa partida em que o Estugarda cilindrou o Bayern por 3-0.

Treinava a equipa de Munique um tal de Jupp Heynckes, ilustre teutónico que, mais tarde, passou duas épocas no Benfica (entre 1999 e 2001) sem se quedar nos anais do clube, a não ser por sido com ele ao leme que os "encarnados" averbaram a maior derrota de sempre nas competições europeias.

A goleada de 7-0 infligida pelo Celta de Vigo, na Galiza, onde, numa manifestação de claro fervor clubístico, estiveram cerca de dez mil benfiquistas – entre muita gente minha conhecida esteve uma pessoa frequentadora deste e doutros blogues cujo nome me abstenho de divulgar –, deixou mossa e Heynckes saiu pouco tempo depois sem honra nem glória, mas sem necessidade de ser corrido a tiro.

Por incrível que possa ter sido, dados os antecedentes e a sequência de acontecimentos, também nessa gloriosa noite de Berlim que fez ruir todo o regime ditatorial não foi preciso descarregar chumbada. Aliás, assim de repente, situação semelhante a esta, e de importância comparável, apenas me lembro da Revolução de 25 de Abril de 1974, que deitou abaixo 48 anos de ditadura militar em Portugal.

Pouco antes disso, numa domingueira tarde de 31 de Março, Marcello Caetano aparecera de surpresa no Estádio José Alvalade – onde foi efusivamente aplaudido de pé pela turba que enchia o recinto dos "leões" – para assistir ao 5-3 aplicado pelas "águias" ao eterno rival de Lisboa. Em vão para os visitantes, diga-se, pois o Sporting sagrou-se campeão nacional no final dessa época de 1973/74.

O argentino Héctor Yazalde bisou e Nené respondeu na mesma moeda, numa equipa do Benfica onde pontificavam Humberto Coelho, Toni, António Simões, Jordão e Vítor Baptista, entre outros craques de renome. Logo após, a boa campanha europeia do Sporting na Taça das Taças terminou abruptamente nas meias-finais às mãos do Magdeburgo, precisamente da República Democrática da Alemanha.

Os "verde-e-brancos" empataram a um golo a primeira mão, realizada em Lisboa, tendo sucumbido depois por 2-1 na viagem a terras alemãs. Este encontro aconteceu a 24 de Abril de 1974, véspera do Dia da Liberdade, momentos antes de Paulo de Carvalho entoar os versos da canção E Depois do Adeus, a senha da revolução e, quem sabe, algum prenúncio também da eliminação sportinguista.

Na Grande Enciclopédia dos Europeus de Futebol, do Diário de Notícias, obra ímpar na língua de Camões sobre a história do desporto-rei editada em 2004, conta-se um episódio curioso, de como o Sporting falhou, literalmente, o derrube da ditadura pátria: "No regresso de Magdeburgo, com o Aeroporto de Lisboa fechado, o Sporting teve de viajar de autocarro desde Madrid, mas em Badajoz encontrou a fronteira fechada. Só a custo, o presidente leonino, João Rocha, conseguiu que a equipa entrasse finalmente em Portugal, 48 horas depois de ter saído da Alemanha Oriental."

10 de novembro de 2009

Dois filmes a (re)ver...


...no 20º aniversário da queda do Muro de Berlim: Adeus Lenine! (Goodbye Lenin!) e As Vidas dos Outros (Das Leben der Anderen; The Life of Others).

Ou de como uma simples falha de comunicação do então responsável pelas relações com os media do Partido Socialista da República Democrática da Alemanha, Günter Schabowski, ao responder precipitadamente a uma pergunta dos jornalistas sobre as novas medidas relativas à concessão de vistos e passaportes de visitas ao Ocidente, com embargo pelo menos até às quatro da madrugada seguinte – resumidamente, a possibilidade de todos os cidadãos do Leste poderem passar livremente de um lado para o outro –, impeliu em poucos segundos a queda da parede de betão armado que dividia a cidade de Berlim ao meio há 28 anos, forçando pouco depois, naturalmente, a abertura de todas as fronteiras entre as duas Alemanhas.

9 de novembro de 2009

Sempre a propósito

- Em resumo, qual é a sua opinião sobre Portugal?
- Um país geralmente corrompido, em que aqueles mesmos que sofrem não se indignam por sofrer (...)

Eça de Queiroz, Uma Campanha Alegre, LIII, Janeiro de 1872

A passagem é repetida mas nunca é demais...

5 de novembro de 2009

Já faltou mais…

Na noite de domingo passado, a polícia de choque viu-se obrigada a disparar balas de borracha para o ar na tentativa de desmobilizar a orda de “leões” contestatários após mais um empate do Sporting no Estádio José Alvalade – 1-1 frente ao Marítimo –, o quarto jogo seguido sem ganhar na Liga e que deixou a equipa a 13 pontos da liderança à nona jornada.

No início da década de 1990, no auge da desagregação da Jugoslávia, os adeptos do Estrela Vermelha, de Belgrado – cuja acção viria a revelar-se fundamental na revitalização do nacionalismo na Sérvia –, interromperam um treino do seu clube munidos de bastões, paus e cassetetes. Espancaram três dos jogadores e justificaram o acto dizendo que não podiam tolerar mais a “falta de empenho no relvado”.

Os conturbados conflitos nos Balcãs levaram mais tarde a UEFA a substituir a apurada Jugoslávia pela eliminada Dinamarca no Campeonato da Europa de 1992 e, de jogadores em férias, a repescada selecção surpreendeu a concorrência e sagrou-se campeã com todo o mérito.

Um pouco de cultura e história do futebol nunca fez mal a ninguém...

29 de outubro de 2009

Nós pelos outros

Numa cena do tocante filme Séraphine, de Martin Provost – cujo tema versa o extraordinário percurso de vida de Séraphine de Senlis (1864-1942) desde dona de casa até se transformar em pintora e mergulhar na loucura –, a protagonista, depois de ver o seu trabalho descoberto pelo coleccionador e crítico de arte alemão Wilhelm Uhde, pergunta ao mecenas para quando a prometida exposição em Paris dos seus quadros.

Perante pragmática Séraphine, alienada de qualquer informação sobre o que acontecia no mundo para além do alcance dos seus olhos, Uhde – o primeiro a reunir obras de uns tais Pablo Picasso e Henri Rousseau –, responde cabisbaixo que rebentou uma crise financeira nos Estados Unidos. Adianta estar a chegar à Europa, de maneira que não será aquele o momento mais indicado para tal aventura, pois nesta altura os compradores de arte estão retraídos e talvez seja melhor esperar algum tempo para ver o que acontece. Uhde referia-se à Grande Depressão, período de recessão económica iniciada pelo colapso do mercado de acções da Bolsa de Valores de Nova Iorque em Outubro de 1929, precisamente há 80 anos.

Entretanto, a crise parece ter voltado no século XXI à escala planetária e com os mesmo heróis. Atrelados à Europa e vulneráveis ao que se passa nos Estados Unidos, "cá se vai andando com a cabeça entre as orelhas" a ver, impávidos e serenos, o Estado a avalizar pedidos de empréstimo dos bancos e financeiros prevaricadores. Atentemos numa passagem de um pequeno volume ao qual estou a deitar os olhos a vulso. Em 1879, Maria Rattazzi, aristocrata nascida na Irlanda mas de origem gaulesa, publicou Portugal a Vol d'Oiseau. Portugais et Portugaises (Portugal de Relance, na tradução da Antígona), um livro "delicioso" sobre Portugal, nas palavras de Antero de Quental, depois de "dois Invernos passados a desfrutar os literatos de Lisboa".

Nessa carta enviada ao amigo João Lobo de Moura, Antero acrescenta: "Imagine uma parisiense descrevendo ao vivo estes mirmidões!". A dita publicação, como é de imaginar, descandeou as mais variadas reacções nas almas lusitanas e, entre seguidores e contras, ficaram famosas as querelas epistolares da dama com Camilo Castelo Branco, cuja obra Senhora Rattazzi (1880) surge em resposta ao atrevido postulado da ingrata visitante e foi recentemente reeditada pela Calçada das Letras em versão fac-similada.

Provavelmente, muita da informação de que dispunha Rattazzi para esmiucar os portugueses de então foi-lhe passada por alguém próximo, mas, por muito enviesada que lhe chegasse aos ouvidos ou aos olhos, o que referiu há 130 anos não deixa de estar surpreendente actual. Tal como, aliás, no palavreado corrosivo de Eça de Queirós:

(...) «Por fim do ano de 1878, o Banco Ultramarino expiou (…) as leviandades de uma péssima administração e de o abuso de um guarda-livros, de um exército de empregados e de directores que meteram a mão nas algibeiras. No dia imediato ao do desastre, o tesouro público punha à disposição do Banco Ultramarino a soma de dois milhões de francos, o dobro dos desvios de fundos. (…)

Porquê?... Por que razão?... Como é que os dinheiros do Estado têm que ver com os dinheiros dos accionistas, de entre os quais alguns grandes e minúsculos empregados são uns gatunos? E com que direito aqueles que administram os dinheiros públicos, aos quais as cortes consignaram destino especial, podem aplicá-los em socorrer um banco em falência?...». (...)

Lapidar, não?

16 de outubro de 2009

The Scope

É toda escrita em inglês e nem parece portuguesa. Prima pela sobriedade e bom gosto, além de ter excelentes textos e fotografias.

O primeiro número desta revista sobre viagens, ambiente, geopolítica, arte e cultura saiu em Outubro e nela pode ler-se, por exemplo, uma entrevista de Emma Thomson a Hugh Laurie, o Dr. House, seu antigo namorado dos tempos da faculdade.

Saber mais aqui e no artigo da edição on-line do jornal Público.



14 de outubro de 2009

O Espião de D. João II

A Ésquilo, Edições e Multimédia acaba de publicar O Espião de D. João II, o mais recente romance histórico de Deana Barroqueiro, referência na área do romance histórico e autora do best-seller D. Sebastião e o Vidente, cujo lançamento decorrerá, em parceria com o El Corte Inglês, esta quinta-feira, 15 de Outubro, pelas 19h30m. Contará com a apresentação de Guilherme d’Oliveira Martins, presidente do Tribunal de Contas.

O formidável Espião de D. João II possuía qualidades e talentos comparáveis aos de um James Bond e Indiana Jones, reunidos num só homem. A memória fotográfica, uma capacidade espantosa para aprender línguas, a arte do disfarce para assumir as mais diversas identidades, a mestria no manejo de todas as armas do seu tempo e, sobretudo, uma imensa coragem e espírito de sacrifício, aliados ao culto cavaleiresco da mulher e do amor que o fascinavam, fazem dele uma personagem histórica única e inspiradora.

El-rei D. João II escolhia-o para as missões mais secretas, certo que qualquer outro falharia. Talvez esse secretismo seja a razão do seu nome de família e do seu rosto terem ficado, para sempre, na penumbra.

Em 1487, Pêro da Covilhã foi enviado de Portugal, ao mesmo tempo que Bartolomeu Dias, a descobrir por terra, aquilo que o navegador ia demandar por mar: uma rota para as especiarias da Índia e notícias do encoberto Preste João. Ao espião esperava-o uma longa peregrinação de cerca de seis anos pelas regiões do Mar Vermelho e costas do Índico até Calecut e, também, pela Pérsia, África Oriental, Arábia e Etiópia, descobrindo povos e culturas em lugares hostis, cujos costumes lhe eram completamente estranhos.

Na pele de um enigmático mercador do Al-Andalus, o Escudeiro-guerreiro do Príncipe Perfeito realizou proezas admiráveis que causaram espanto no mundo do seu tempo. Neste romance fascinante, Deana Barroqueiro convida-nos a seguir o trilho de Pêro da Covilhã na sua fabulosa odisseia recheada de aventuras, amores, conquistas e descobertas inolvidáveis…

Deana Barroqueiro (Prémio Máxima de Literatura – Prémio Especial do Júri com o romance D. Sebastião e o Vidente) é, sem dúvida, uma referência da ficção histórica, em Língua Portuguesa. Este livro, fruto de um rigoroso trabalho de investigação, unindo marcos de grande relevo histórico e uma descrição muito rica dos espaços e personagens, lê-se com fascínio da primeira à última página.

Nota: Texto enviado pela editora.

13 de outubro de 2009

Fanfarrão e fumoso

Passaram ontem 517 anos sobre a chegada de Cristóvão Colombo às Américas, em 1492, ao serviço dos Reis Católicos de Espanha, Fernando e Isabel, isto depois de ter sido posto a andar por D. João II, O Princípe Perfeito.

O ufano queria alcançar as Índias por Ocidente e estava convencido que aportara à Ásia Oriental. Ainda assim, originou um dia feriado no país vizinho e não foi de estranhar os magotes de espanhóis a vaponearem-se pela Baixa de Lisboa durante o fim-de-semana prolongado.

Em baixo, excerto do excelente livro O Navegador da Passagem, de Deana Barroqueiro, onde a certa altura aparece a manhosa personagem (páginas 34-36):

Findava o ano de mil quatrocentos e oitenta e seis e D. João II exultava com os resultados obtidos pelos seus servidores de confiança – navegadores, aventureiros e espiões – tanto ao leme das caravelas de descobrir como nas surtidas dos navios de corso ou no dorso dos camelos das caravanas dos desertos.

– Fizemos o ninho atrás da orelha aos nossos primos de Castela – gabava-se, cheio de confiança, na reunião dos seus homens do mar com os matemáticos, astrónomos e geógrafos da corte. – A descoberta da passagem para o Índico abriu-nos o caminho para as Índias e deu-nos o trato das especiarias que eles tanto cobiçam. (...)

– Ao dobrar o cabo de África, o vosso escudeiro Diogo Cão causou grande despeito ao fanfarrão Cristóvão Colombo – lembrou ainda Mestre Rodrigo das Pedras Negras, o físico d'el-rei, soltando uma discreta gargalhada. – Ele jura e tresjura que a sua derrota é a mais curta do que a nossa, dizendo ainda que o cosmógrafo Piero Toscanelli o aconselha a alcançar a Índia numa viagem de circum-navegação por Ocidente, em vez de ir por África.

– O rebolão ameaça ir oferecer os seus serviços a Castela, se Vossa Alteza não lhe der aviamento – preveniu o escudeiro Pêro da Covilhã, o mais expedito espião d'el-rei, sempre a par de tudo o que se passava dentro e fora da corte.

– Pois que vá muitieramá! Dizer que as Índias estão mais cerca indo para Ocidente parece-me fantasia tirada do livro de Marco Polo e se lhe dei permissão para falar com os meus astrónomos foi para me livrar dele. Talvez assi esse fumoso deixe de me importunar com a jactância dos seus méritos e perícia de navegar. (...)

– Muito do que Colombo sabe de navegação no Atlântico – insistia [Duarte] Pacheco Pereira – aprendeu-o nos nossos navios da derrota da Mina e da Guiné (...)

– Os seus cálculos estão todos errados – assegurou Mestre Rodrigo, com desprezo. – Desconfio que não sabe sequer usar o astrolábio para tomar a altura do sol e calcular a latitude!

9 de outubro de 2009

A minha rua dava um filme

Quando cheguei a esta rua, o piso térreo existente em frente à porta do meu prédio estava ocupado por um gabinete de arquitectos antes de mudar para o ramo das bruxarias, mezinhas e assuntos transcendentais.

Mas neste tempo de eleições autárquicas passou a ser sede de campanha de um candidato à junta de freguesia do bairro, de cuja lista faz parte também o dono da loja das chaves situada mesmo ao lado do local onde habito.

Cruzei-me com ele esta semana e interpelou-me de pronto:
- Você vota aqui?
- Já sei que está numa das listas mas nem eu nem a Mónica estamos recenseados nesta freguesia.
- Que chatice! É que nem eu posso votar em mim, pois acontece-me o mesmo...

Além dos estabelecimentos atrás enumerados, a artéria onde moro, no coração de Lisboa, prima pela variedade: tasca de fado vadio que só abre à noite; instrumentos musicais; cabeleiras postiças e afins; bazar esotérico; talho; adereços de Carnaval; vinis, CD's, DVD's e livros em segunda mão; florista; cabeleireiro unisexo; café ainda com mesas de tampo de mármore e pés de madeira; bar/massagista, listado no circuito gay e lésbico lisboeta, e aberto até de madrugada; pensão de 2ª categoria com entra e sai de gente a qualquer hora do dia ou da noite; restaurante indiano; mercearia; e, mais recentemente, computadores e Internet.

7 de outubro de 2009

Faça um seguro…

Como todas as pessoas que pediram dinheiro emprestado à banca, no meu caso para comprar casa, fui obrigado a fazer um seguro de vida. Só o fiz porque me vi forçado a tal, e até compreendo a posição dos homens do dinheiro, mas ultimamente parece que toda essa gentalha se juntou para tentar segurar-me das mais variadas maneiras. Da próxima vez que for abordado, respondo como neste texto de Miguel Torga, no Diário IV (Coimbra, 4 de Novembro de 1948):

‒ Faça um seguro…
‒ Deus me livre!
‒ Olhe que é útil! Morre-se, recebem os herdeiros; tem-se um desastre, pagam-nos o hospital; fica-se inválido, dão-nos uma pensão…
‒ Não teime. Eu gostava de me segurar mas para não morrer, para nunca ficar inválido, para não ser esmagado por nenhum automóvel… Agora segurar-me para depois dessas desgraças, não me interessa. Se o destino me ganhar o jogo, quero que ele assuma a responsabilidade do que fez!

Genial!

6 de outubro de 2009

Amália, hoje e sempre!

Estranha forma de vida (poema de Amália Rodrigues: 23/06/1920-06/10/1999)

Foi por vontade de Deus
que eu vivo nesta ansiedade.
Que todos os ais são meus,
Que é toda minha a saudade.
Foi por vontade de Deus.

Que estranha forma de vida
tem este meu coração:
vive de vida perdida;
Quem lhe daria o condão?
Que estranha forma de vida.

Coração independente,
coração que não comando:
vive perdido entre a gente,
teimosamente sangrando,
coração independente.

Eu não te acompanho mais:
pára, deixa de bater.
Se não sabes onde vais,
porque teimas em correr,
eu não te acompanho mais.

14 de setembro de 2009

Bonito, bonito!

Numa entrevista dada ao Carlos Vaz Marques na edição de Maio de 2008 da revista Ler, António Lobo Antunes, respondendo à pergunta sobre que colegas lusófonos de profissão admirava e respeitava, respondeu Pepetela, pela “obra profundamente honesta”, a “melhor qualidade que um escritor pode ter” e acrescentou:

“Gosto do José Eduardo Agualusa, por exemplo. Acho que é um homem que tem muito talento. Tem uma coisa rara em Portugal: muito sentido de humor a escrever. E depois é agradável olhar para ele porque é bonito. É um homem de uma simpatia e de uma modéstia muito grandes. Gosto muito dele.”

Cruzei-me com o visado na semana passada na livraria Bertrand do Chiado, ele a sair e eu a entrar, e – além de concordar com a primeira parte do que disse Lobo Antunes – pude comprovar também aquela antepenúltima frase. Morenaço do sol e corpinho bem cuidado, trazia na mão Jesusalém, do Mia Couto.

10 de setembro de 2009

Excessos de boa educação

Ao contrário do que tem sido habitual, desta vez não foi preciso deixar a contagem da electricidade escrita e colada na porta da rua num daqueles “post-it” amarelos.

Mal teve acesso ao local que procurava, o funcionário da EDP esboçou um sorriso cúmplice na minha direcção quando se deparou com o aparelho. Não lhe consegui ver o brilho nos olhos, talvez devido ao adiantado da hora. Madrugadora, que a noite, pelo menos para mim, parecia não ter ainda terminado:
– Ah… um bidiariozinho!, exclamou de felicidade.

Esta ternura de terminar as palavras com diminutivos dos nomes deixa-me derretido! Acontece muito nos restaurantes: E para beber? Muito bem... uma imperializita; e agora vai um cafezinho? Os excessivos modos educados também saturam.

9 de setembro de 2009

Notícia do dia

“E agora interrompemos por momentos esta notícia para assinalar as 9 horas e 9 minutos do dia 9 do 9 de 09”, diz a jornalista de serviço na Edição da Manhã da SIC Notícias exactamente à hora marcada.

31 de agosto de 2009

Saudades da serra

Ver informação no site oficial do filme.

17 de julho de 2009

Até já!

Este espaço entrou de férias há já algum tempo e agora é a vez do próprio dono mergulhar nelas por duas semanas. Pode ser que regresse com mais vontade!

Até lá, fiquem bem!

5 de junho de 2009

A minha loira já tem concorrência

A Sagres lançou a meio do mês passado o barril de cinco litros para uso doméstico, concorrente da Xpress da Super Bock e, nestas primeiras semanas de Junho, vai invadir a comunicação social com o mote da campanha: «Sagres Barril 5 Lts, cerveja à pressão, onde houver sede».

Embora os produtos sejam algo distintos – o novo não tem máquina nem sistema de refrigeração como o outro (cujo preço se eleva a mais de 100 euros) e custa 12 euros (o do barril da Xpress), mas é bastante mais pequena em tamanho –, não há nada melhor do que experimentar para aquilatar as diferenças.

Voltarei brevemente ao assunto...

22 de maio de 2009

A luta continua

Já vai algo atrasado, mas ainda assim segue na mesma o postado.

O 3 de Maio de 1808 em Madrid: Os Fuzilamentos na Montanha do Príncipe Pío faz parte das 15 obras-primas do Museu do Prado (Madrid), entre as quais se encontram também As Meninas (Diego Velázquez), Homem com a Mão no Peito (El Greco) e O Jardim das Delícias (Hieronymus Bosch, ou simplesmente El Bosco para os espanhóis).

Está exposta mesmo ao lado de outra relativa ao mesmo tema – O 2 de Maio de 1808 em Madrid: A Luta com os Mamelucos. Em baixo, transcrevo alguns dos momentos finais da obra Um Dia de Cólera, de Arturo Pérez-Reverte. Em 285 páginas, aborda os acontecimentos desse fatídico dia, desde as primeiras horas de 2 de Maio à madrugada seguinte, numa excelente tradução de Helena Pitta e que assenta bem no quadro pintado pelo Goya. Mais informações sobre o livro e o assunto podem ser encontradas na página do livro na Internet – recomendo vivamente a quem ler o dito ou tiver interesse.

«(…) A chuva salpica tudo na escuridão. São quatro da manhã e ainda é noite cerrada. Diante do quartel do Prado Nuevo, num descampado da montanha do Príncipe Pío, duas lanternas postas no chão iluminam, na penumbra e à contraluz, um grupo numeroso de silhuetas agrupadas junto de um talude de terra e de uma cerca: quarenta e quatro homens manietados individualmente, aos pares ou em cordões de quatro ou cinco ligados a uma mesma corda. Com eles, entre o soldado dos Voluntários do Estado Manuel García e o bandarilheiro Gabriel López, o chispero [N. da T.: nome pelo qual eram conhecidos os moradores dos bairros altos de Madrid: Maravillas, San Antón, Barquillo] Juan Suárez observa com receio o pelotão de soldados franceses formados em três filas. São marinheiros da Guarda, disse García, que devido ao seu ofício conhece os uniformes. Cobertos com barretinas sem viseira, os Franceses trazem à cintura sabres de gala e protegem da chuva os fechos de pederneira. A luz das lanternas faz brilhar os capotes cinzentos, reluzentes de água.
– O que se passa? – pergunta Gabriel López, apavorado.
– Passa-se que se acabou – murmura, lúcido, o soldado Manuel García. Muitos se apercebem do que estás prestes a acontecer e caem de joelhos, suplicando, amaldiçoando ou rezando. Os erguem ao alto as mãos amarradas, apelando à piedade dos Franceses. Por entre o clamor das súplicas e maldições, Juan Suárez ouve um dos presos – único sacerdote entre eles – rezar em voz alta o Confiteor [Eu me confesso], seguido por algumas vozes trémulas. Outros, menos resignados, contorcem-se nas suas amarras e tentam investir contra os verdugos.
– Filhos da puta!... Gabachos [N. da T.: nome depreciativo pelo qual os Franceses eram conhecidos em Espanha] filhos da puta! Alguns guardas afastam presos, empurrando-os com as baionetas contra o talude e a cerca. Outros, nervosos com a gritaria, começam a disparar sobre os mais agitados. Ouvem-se descargas aqui e ali, e os clarões iluminam rostos irados, expressões desfiguradas pelo pânico ou pelo ódio. Começam a cair os homens, isolados ou num amontoado confuso. Ouve-se uma ordem em francês e a primeira fila de soldados com capotes cinzentos levanta ao mesmo tempo os fuzis, aponta, e uma descarga cerrada abate o primeiro grupo colocado diante da cerca.
– Estão a matar-nos!... A eles!... A eles! Alguns desesperados, muito poucos, atiram-se contra as baionetas francesas. Há quem tenha partido as cordas e levante os braços desafiadores, avance alguns passos ou tente fugir. A golpes de baioneta ou à coronhada, os guardas empurram outro grupos e os presos avançam às cegas, espavoridos, pisando corpos. Num instante, a segunda fila de capotes cinzentos substitui a primeira, ouve-se uma ordem, e um novo rosário de tiros, cujo resplendor se fragmenta e multiplica nas bátegas de chuva, salpica a cena. Caem mais homens a monte, ceifados de chofre gritos, insultos e súplicas. Agora os Franceses retrocedem um pouco para darem mais espaço, e ecoam os estampidos de uma terceira descarga, cujos clarões se reflectem, vermelhos, nos regueiros de sangue que correm sob os corpos caídos, misturando-se com a água no chão. Amarrado a Manuel García e Gabriel López, Juan Suárez, que foi empurrado contra o talude e obrigado a ajoelhar-se à coronhada e a ferroadas de baioneta, tropeça nos mortos e agonizantes, escorrega na lama e no sangue. Entre a chuva que lhe corre pela cara, olha atordoado para as silhuetas cinzentas que erguem de novo os fuzis, apontando. Teme de frio e de medo.
Feu! (…)»

19 de maio de 2009

Fátima, cerveja e tremoços

No programa Os Contemporâneos, da RTP 1, existe um espaço em que o desconcertante Bruno Nogueira faz perguntas desconcertantes a gente que encontra na rua sobre os mais variados temas da actualidade e, claro está, habilita-se a receber algumas respostas desconcertantes.

A que se segue aconteceu no domingo e versou mais ou menos assim:
– Era capaz de ir a pé a Fátima?
– Quê? Eu? Hum... Se ainda fosse ali à Sagres, a Vialonga [Fábrica da Central de Cervejas]... Mergulhava para dentro de um pipo daqueles grandes e só vinha ao de cima de vez em quando para pedir tremoços!

12 de maio de 2009

A real feiura

Quando Francisco de Goya y Lucientes retratou A Família de Carlos IV em 1800, pouco tempo depois de ter sido nomeado pintor real da corte de Espanha, certamente estava longe de pensar que, em pouco tempo, aquele pomposo rapazola vestido de azul que aparece em primeiro plano do lado esquerdo, Fernando VII, iria passar de herói aclamado e desejado pelo povo a monarca absolutista, repressor cruel dos movimentos liberais.

Chegou ao poder em 1808, ano em que começou a Guerra da Independência contra a França de Napoleão e na sequência da abdicação forçada de seu pai. Por esta altura, do outro lado da fronteira, em Portugal, também se combatia a tropa imperial tricolor, mas a monarquia toda zarpara já para o Brasil, deixando os gauleses literalmente “a ver navios”, expressão tornada conhecida pelo facto de o general Junot, estratega da primeira invasão francesa em solo pátrio, ter entrado em Lisboa quando a soberba frota lusitana navegava ainda as águas do Tejo em direcção a Terras de Vera Cruz.

Nenhum monarca europeu tinha alguma vez pisado outro território que não o Velho Continente, quanto mais governar à distância, mas, no meio de outros factores igualmente importantes, a fuga da realeza, ainda assim, terá contribuído decisivamente para a manutenção da independência da coroa portuguesa. Entre os fugitivos régios contava-se a infanta espanhola Carlota Joaquina e que se pode ver de perfil, escondida, apenas com a face esquerda da cara à mostra e do lado oposto ao próprio Goya – cujo aparecimento atrás à esquerda, junto da enorme tela, contém clara referência a outro famoso quadro presente no Museu do Prado, em Madrid, As Meninas, de Diego Velásquez, pintor que, aliás, muito admirava.

Filha de María Luisa de Parma, figura central do quadro – o que sugere ser ela a verdadeira líder do reino vizinho, e não o seu marido –, a então Rainha de Portugal, por casamento com D. João VI, tinha nessa altura 25 anos e, tal como a sua mãe, a beleza não era o seu forte. Abundam as descrições: «Megera horrenda e desdentada, criatura devassa e abominável em cujas veias corria toda a podridão do sangue Bourbon, viciado por três séculos de casamentos contra a natureza», segundo o historiador Oliveira Martins; «ossuda, com uma espádua acentuadamente mais alta do que a outra, uns olhos miúdos, a pele grossa que as marcas das bexigas [assim do tipo da cara do Bryan Adams] ainda faziam mais áspera, o nariz avermelhado. E pequena, quase anã… Alma ardente, ambiciosa, inquieta, sulcada de paixões, sem escrúpulos e com os impulsos do sexo alvoroçados», noutra descrição.

E ainda: «Olhos pequenos e desiguais. Nariz quase sempre inchado e vermelho. Boca guarnecida de maus dentes, uns enegrecidos, outros amarelos, dispostos obliquamente. Pele áspera e curtida. Para cúmulo da feiura, tinha sempre espinhas em supuração. Os braços, que usava nus, eram chatos, ossudos e, acima de tudo, muito cabeludos». Tudo isto não a impediu de ter bastantes amantes, mas, claro está, era a rainha e nada se nega a sua majestade, mesmo que putativa, ou reputada puta.

Numa cena do filme Os Fantasmas de Goya (2006), de Milos Forman, que aborda esta parte da vida do artista e no qual Javier Bardem tem mais um desempenho notável – embora não vista a pele do pintor espanhol, interpretado por Stellan Skarsgård –, Goya aparece a dada altura a fazer o retrato a cavalo da altiva María Luisa, progenitora de Carlota, ou melhor, num suporte de madeira a imitá-lo.
– Como quer que monte?, pergunta a rainha.
– Como deseja ser lembrada pela História?, devolve o mago do pincel.
– Assim, tal qual como sou: jovem e bela!

Mais à frente na película, quando Goya destapa finalmente a tela em ocasião solene perante Carlos IV e María Luisa, a reacção dos soberanos é sintomática – abandonam imediatamente a sala indignados e sem tecer qualquer comentário. Como se pode averiguar tanto em cima como ao lado, aqueles eram precisamente dois dos atributos em avantajada míngua na real senhora e pintura não faz milagres.

Isto lembrou-me também aquela anedota, algo machista mas com piada, em que o marido chega à noite a casa complemente emborrachado, depois de uma noitada de copos com os amigos e, num assomo de sinceridade provocado pelo excesso de álcool no sangue, diz para a mulher:
- Xi… Tu és mesmo muito feia!
- E tu estás perdido de bêbado, riposta ela.
- Ah, mas a mim amanhã passa-me…

Bom, tudo isto para dizer que, ao vivo e a cores, como tive a oportunidade e a felicidade de comprovar, os quadros – há muitos outros portentosos, de autores diversos e fora do tema retratista – são simplesmente magníficos!

Nota: As descrições da Carlota Joaquina foram retiradas do excelente e didáctico livro Frases que Fizeram a História de Portugal, da autoria de Ferreira Fernandes e João Ferreira, A Esfera dos Livros, 2006

7 de maio de 2009

Porcalhota ao fundo

Éramos o país das rotundas, somos cada vez mais também o dos centros comerciais. Pobres de alguns de nós, agora que abriu o Dolce Vita Tejo ali para os lados da Amadora, originalmente chamada de Porcalhota, certamente terra de boa gente.

São 122 mil metros quadrados, 297 lojas, a enorme Kidzania – espaço para crianças – e 11 salas de cinema, num espaço "equivalente a mais de 12 campos de futebol", como salienta o Público sobre o maior shopping do burgo. Tudo isto e nove mil lugares de estacionamento disponíveis. Espero sinceramente nunca lá meter os calcantes!

De acordo com o recém-nascido diário I, «à porta do centro comercial Dolce Vita Tejo, que hoje foi inaugurado, dormiram 300 pessoas. Sónia e Bruno foram os primeiros. (...) Ela, grávida de oito meses, dormiu no chão como todos os outros. Ele veio acompanhá-la. “Não a podia deixar sozinha. Ela queria vir de qualquer maneira”, explicou». Pobre criança, ainda não veio ao mundo e já foi obrigada a sacrifícios destes.

Elucida-nos ainda o Público: «No total, em 2009, está prevista a abertura de 11 novos espaços de grande dimensão, seguindo uma tendência já verificada em 2008 (ano em que abriram 13 conjuntos comerciais)».

Para ganhar coragem antes da tarde e noite de trabalho que ainda tinha pela frente, saboreei as primeiras sardinhas da temporada ao almoço (e bem boas elas estavam), emborquei uma imperial fresquinha e dirigi-me à Feira do Livro de Lisboa em plena canícula. Espero sinceramente voltar a lá meter os calcantes!

29 de abril de 2009

Humor negro em dia cinzento

Esta quinta-feira, grátis com O Inimigo Público, «uma máscara para se proteger da gripe suína (e ainda conseguir lugar sentado nos transportes públicos)».

Mais a sério, não tenho dúvidas que, mais cedo ou mais tarde, haverá mesmo um surto de larga escala de uma gripe qualquer, seja das aves, suína ou de outro tipo. A questão é, dentro do possível, estarmos preparados para quando isso acontecer a valer.

Até lá, evitemos os comportamentos de risco, pois a medicina preventiva sempre foi a melhor de todas!

Nota: A brilhante montagem da fotografia que ilustra esta prosa foi feita pela não menos refulgente equipa d'O Inimigo Público e retirada da página do semanário cómico na Internet. Espero que me perdoem a ousadia e não leve com um processo em cima...

28 de abril de 2009

Afinal, o tamanho importa!

Anúncio de página inteira ímpar (as mais importantes) no Público desta terça-feira:

Para algumas pessoas
O TAMANHO É MESMO IMPORTANTE!
Calma! Estamos apenas a falar do pequeníssimo Siemens Pure CR2, "todo no ouvido", como refere a publicidade, aparelho auditivo de "elevado desempenho como nenhum outro!"

É hoje!

27 de abril de 2009

El 2 de Mayo en Madrid

Na puerta del Sol estão reunidas dez mil pessoas e o gentio espalha-se pelas ruas próximas, desde Montera até à rede de San Luis, bem como pelas calles del Arenal, Mayor e Postas, enquanto grupos armados com bacamartes, garrotes e facas patrulham os arredores, alertando para qualquer presença francesa. Da janela de sacada da sua casa, no número 15 da calle de Valverde, na esquina com a calle Desengaño, Francisco Goya e Lucientes, aragonês de sessenta e dois anos de idade, membro da Real Academia de San Fernando e pintor da Casa Real com cinquenta mil reais de renda, olha para tudo com expressão melancólica.

Por duas vezes mandou embora a sua mulher, Josefa Bayeu, quando ela lhe pediu que baixasse a persiana e viesse para dentro. Em colete, com o colarinho da camisa aberta e os braços cruzados sobre o peito, um pouco inclinada a cabeça poderosa, o pintor mais famoso de Espanha permanece assomado, obstinado, contemplando o espectáculo que vê na rua. Dos gritos do gentio e dos disparos isolados, longínquos, chegam apenas aos seus ouvidos – surdos desde que uma doença os deteriorou há anos – alguns ruídos apagados que se confundem com os rumores do seu cérebro, sempre atormentado, tenso e vivo.

Goya está à varanda desde que, há pouco mais de uma hora, o jovem de dezoito anos León Ortega y Villa, seu discípulo, veio da sua casa da calle Cantarranas pedir-lhe licença para não ir ao estúdio. «Se calhar temos de fazer frente aos Franceses», disse ao pintor, aproximando-se do seu ouvido inválido e levantando muito a voz, como de costume, antes de se ir embora com um sorriso juvenil e heróico, próprio dos seus poucos anos, sem ceder aos rogos de Josefa Bayeu, que o recriminava por correr riscos sem se preocupar com a angústia da sua família.
― Tens mãe, León.
― E vergonha na cara, dona Josefa.

Excerto de Um Dia de Cólera, de Arturo Pérez-Reverte (página 84), obra que fala das “vinte e quatro horas que mudaram o destino de Espanha. Heróis e cobardes, vítimas e verdugos, uma imensidão de nomes que a História apagou ou apenas reteve em listas de mortos e feridos ou relatórios militares. Todos esses homens e mulheres são autênticos e revivem nestas páginas o dia em que os seus gestos mudaram para sempre o destino de uma nação.

A 2 de Maio de 1808, Madrid foi cenário de uma revolução espontânea. O ressentimento gerado pela presença francesa intensificou-se e a população reagiu, por fim, aos abusos de que era alvo.

É a essa população que Pérez-Reverte dá voz em Um Dia de Cólera. Um livro que não é ficção. Que não é um documento histórico. É, sim, uma história colectiva feita de pequenos e obscuros casos individuais. Uma história feita de luz e sombra. De pessoas que nada têm a perder e cuja união gera a cólera de que se fez uma revolução.»

Nota: Duzentos e um anos volvidos conto estar em Madrid para assinalar a efeméride e, finalmente, ver os quadros do Goya e de outros, visto tê-los falhado em anteriores visitas, isto exactamente no mesmo dia de outra peleja clássica na capital espanhola, entre Real Madrid e Barcelona, no campo de batalha do Santiago Bernabéu.

24 de abril de 2009

Liberdade

Dizia o jornalista Adelino Gomes, um dos fundadores do Público, num apontamento de reportagem exibido pelo Canal de História há uns tempos sobre a Revolução de 25 de Abril de 1974:

«Tinha feito os últimos anos do liceu com um companheiro chamado [Salgueiro] Maia, que tinha ido para a tropa e fui à procura para ver se era esse. E era mesmo. Por isso, a primeira coisa que fiz [quando chegou ao Largo do Carmo, onde estava o Maia numa chaimite] foi perguntar-lhe:
“Ouve lá, tu estás com o [general] Kaúlza [de Arriaga] ou com o movimento dos capitães?”
E ele deu-me aquela que é ainda a melhor resposta, a mais bonita resposta, a mais bonita definição do 25 de Abril.
“Tu não tiveste um problema qualquer com a Censura e tiveste que sair de Portugal?”
Fiquei muito admirado que soubesse isso, pois nós nunca mais tínhamos falado. Disse: “Sim, estive na Alemanha”.
“Então, olha, nós estamos a fazer isto para ninguém mais seja obrigado a sair de Portugal por causa daquilo que diz, escreve ou pensa”.
É uma definição lindíssima de liberdade.»

À memória de Salgueiro Maia, o verdadeiro (e injustiçado) capitão de Abril!

Sugestão: Além das inúmeras peças e documentários na RTP, SIC Notícias, TVI 24 e... Canal de História, aproveitem também para ver ou rever no sábado à tarde, na RTP 1, o filme Capitães de Abril (2000), de Maria de Medeiros, feito em homenagem à figura de Salgueiro Maia. No entanto, é demasiado penoso ver as falas dobradas do protagonista (o italiano Stefano Accorsi) e das outras personagens, pois a película foi originalmente gravada em língua francesa, presumo que por questões ligadas à distribuição internacional e participação em festivais.

22 de abril de 2009

16 de abril de 2009

É a crise

Os tempos parecem não correr de feição, a crise chega a todo o lado e atinge todos sem perdão, até a PSP.

Caminhava eu calmamente ontem à noite pela lateral da Avenida da Liberdade, rumo a casa depois de ter assistido no cinema São Jorge ao espectacular documentário Os Tempos de Harvey Milk, quando, na altura em que me preparava para atravessar a passadeira junto ao cruzamento com a Praça da Alegria, reparei num velhinho carro azul da polícia parado ali mesmo ao pé do semáforo com as duas rodas do lado direito em cima do passeio.

A inusitada situação de transgressão causou estranheza a quem passava na rua, peões ou automobilistas, mas rapidamente passou a hilariante – para não falar humilhante – assim que um herculano agente de autoridade saiu da viatura, reuniu todas as suas forças e meteu-se a empurrar sozinho o veículo avariado em plena via pública, isto perante o olhar incrédulo e o sorriso matreiro dos transeuntes.

Por sorte, aquela parte da rua é ligeiramente a descer e, após ganhar algum balanço, o pobre motor do velho Fiat lá voltou a roncar e a dupla pôde prosseguir viagem no encalço dos ladrões.

15 de abril de 2009

Cenas do fim-de-semana pascal

Neve, só a vi ao longe – e a olhar a serra, como se pode comprovar pela fotografia! Algum frio, vento gélido, silêncio quanto baste e pouco para fazer, a convidar o descanso, a conversa, a música e a leitura. Desta vez, o périplo teve direito a visita e dormida noutra aldeia bem pertinho da “minha” – assim grafada entre aspas porque nasci alfacinha de gema – e também não fica longe da de adopção.

A santa noite de sexta-feira, passada entre amigos e em árdua luta com o entrecosto, terminou no enésimo visionamento do fantástico filme A Vida de Brian (1979), dos Monthy Python.

Dizem que uma das características dos Touros, como eu, é serem teimosos – enfiam uma coisa na cabeça e há-de quem as contradiga! Decidira ver pela primeira vez o Ben-Hur, a épica película de três horas e meia realizada por William Wyler, vencedora de 11 Óscares da Academia em 1959, e, após o momentâneo apagão na fase inicial, lá consegui cumprir a estóica empreitada do serão de sábado. O domingo foi de regresso e por isso não conta!

14 de abril de 2009

Eu vou lá estar para ver...

... pois acabo de ganhar um convite duplo na Radar. Aliciante e meio caminho andado para, finalmente, ir ver o filme protagonizado pelo Sean Penn e que lhe valeu o Óscar de Melhor Actor.

"A Midas Filmes vai lançar em DVD o documentário Os Tempos de Harvey Milk, de Rob Epstein e Richard Schmiechen, na quarta-feira, dia 15 de Abril, às 21h30, no Cinema São Jorge (Sala 1), lançamento a que se seguirá uma sessão única do filme premiado com o Óscar de Melhor Documentário em 1984. Esta sessão conta com o apoio do Queer Lisboa – Festival de Cinema Gay e Lésbico de Lisboa, da Associação Cultural Janela Indiscreta, e da EGEAC, E.E.M.

A seguir à sessão, haverá música no foyer do cinema e serão apresentados alguns excertos dos extras do DVD. A selecção musical, da responsabilidade de Nuno Galopim, vai evocar a contribuição da cidade de São Francisco, em finais dos anos 70, para o desenvolvimento do hi-nrg (ler high energy), uma importante derivação do disco sound que depois ganhou expressão na pop de inícios de 80 e que, na presente década, voltou a cativar a atenção dos entusiastas da música de dança.

Das memórias fundadoras de Patrick Cowley e Sylvester ao presente com Lindstrom, passando por herdeiros vários, dos Pet Shop Boys a Divine, dos Dead Or Alive aos Bronski Beat, dos New Order a Evelyn Thomas."

Texto retirado do Queer Lisboa. Mais informação também em: Ípsilon, Sound + Vision, DN e EGEAC.

Cenas da vida na aldeia

Sou avesso às debandadas cíclicas das multidões nas férias ou em fins-de-semana prolongados, mas existem algumas excepções e uma delas aconteceu precisamente nesta Páscoa. Por força de ainda não ter saído de Lisboa desde o início de Dezembro do ano passado, e devido ao facto de ter tido quatro dias de folga seguidos, decidi sem tormento rumar à Beira Alta nesta apinhada época em que os cristãos celebram a morte e ressurreição do seu salvador, Jesus Cristo.

Por circunstâncias várias, que não vêm agora ao caso, o poiso habitual deixou de ser a terra dos meus egrégios avós e mudou-se de armas e bagagens para território do sogro, igualmente beirão. Desses memoráveis dias guardo religiosamente as festas em honra de São Bento, durante as quais os olhos dos mirones da povoação se viravam para essa excentricidade chamada “menino da cidade”, a azáfama dos preparativos para celebrar todas as ocorrências da quadra, bem como a grandiosa procissão em honra do padroeiro da aldeia, para não falar das concorridas missas, dos galantes bailes e das estrondosas actuações da banda filarmónica.

O auge dava-se quando me escondia do padre benzedeiro que invadia os lares alheios para os abençoar e obrigar os crentes a beijar cruz sagrada, isto perante a acção reprovadora da beata mãe do meu pai.

Dona Aninhas, como era conhecida, ficou viúva tinha eu apenas seis anos e andava na primeira classe, pelo que, sendo o primo mais velho de entre os netos, fui o único a não estar presente no funeral do meu avô Joaquim, de quem ainda guardo lembranças, mesmo que vagas – dizem que herdei muito dele, aliás tal como do do lado materno, embora não o tenha sequer conhecido.

Habituada a estar ainda mais sozinha depois da morte do marido, Dona Aninhas passava grande parte da vida caseira na ampla cozinha, o centro do seu mundo, onde reinava e estava tudo o que precisava. Na fase terminal da vida, tinha por companhia a televisão, o fanhoso rádio de pilhas sintonizado impreterivelmente na onda média da Rádio Renascença – autoentitulada de Emissora Católica Portuguesa – e um dicionário de português, de onde todos os dias retirava uma palavra para acrescentar ao seu léxico, aproveitando sempre a melhor ocasião e qualquer deixa para a exibir orgulhosamente perante os presentes.

E, no meio de tudo isto, apenas há pouco tempo me apercebi da razão por que a naturalidade que está no BI do meu progenitor é Lisboa e não a da dita terreola: Dona Aninhas casou prenha em Agosto dos idos de 1941, uns três meses antes de dar à luz o primeiro dos seus quatro rebentos. A escandaleira que deve ter sido!

1 de abril de 2009

Vício

Banana, laranja e bolacha... Faz-me lembrar a meninice, quando partia as bolachas Maria em pedaços e os atirava para dentro dos iogurtes. Os tempos mudaram e nesta versão apenas sentimos o sabor delas. É como comer delícias do mar em vez de marisco. Mas é a minha perdição!

27 de março de 2009

Os gastos do jovem Darwin

Ainda não fui ver a exposição A Evolução de Darwin, na Fundação Calouste Gulbenkian, da qual aqui falei quando foi inaugurada, mas têm-me dito maravilhas – que é do melhor que já se viu em Portugal.

Sabíamos que o pai da teoria evolucionista nunca fora aluno excelente na adolescência e ficámos agora a saber, graças à divulgação de seis livros de registos do Christ's College, da Universidade de Cambridge, que Darwin, nascido em 1809, gastou mais dinheiro em sapatos caros durante o seu tempo de estudante universitário do que, por exemplo, em livros.

De acordo com os documentos agora publicados, o naturalista, oriundo de famílias abastadas – daquelas em que não é preciso trabalhar para viver, aliás, só assim, por ter as despesas todas pagas pelo pai, é que se pôde dar ao luxo de viajar à volta do planeta durante cinco anos no navio HMS Beagle –, desembolsou o equivalente a 49 mil euros, na moeda actual, em serviços apenas ao alcance de privilegiados, como o de pagar a alguém para lhe manter lareira a acesa, polir os seus sapatos, barbeiro, limpa-chaminés, farmacêutico, bagageiro, vidraceiro, chapeleiro, lavadeira, pintor, entre outros.

Os registos praticamente não referem gastos em livros ou algo relativo aos estudos e, segundo consta, a bebida e o tabaco eram as imagens de marca do autor de A Origem das Espécies quando tinha 20 anos. Segundo um porta-voz da Universidade de Cambridge, “Darwin fazia o que era esperado de um cavalheiro do século XIX, mas passou pouco tempo a estudar ou a ler, preferindo caçar, andar a cavalo ou coleccionar escaravelhos".

Além de evidenciar que a mundanidade de uma existência juvenil pode levar, mais tarde, a feitos grandiosos (apesar de haver génios quase logo à nascença), isto coloca-nos perante outra questão: a de as mentes humanas mais brilhantes terem nascido (ou nascerem) quase sempre em classes sociais elevadas, onde, de certo modo, existe menos a preocupação e o problema de encontrar soluções para coisas tão simples como ter comida e conseguir sobreviver.

Penso nem ser preciso citar exemplos, mas é precisamente por isto que fico fascinado com o percurso de personagens como José Saramago, cuja instrução pouco passou da quarta classe e que, quer se goste ou não (eu gosto), de serralheiro mecânico chegou a Prémio Nobel da Literatura.

Ler aqui a notícia da página oficial da Universidade de Cambridge na Internet.

25 de março de 2009

A odisseia do trono no Odisseia, parte 2

Vou falar de civismo. Confesso que a única vez em que fui parar à Polícia aconteceu quando resolvi mictar ao relento na cidade. Era jovem inconsciente (adoro esta expressão) e numa das muitas idas a Alfama, talvez o meu bairro preferido de Lisboa, avisei quem estava comigo que iria fazer chichi no muro mais próximo que encontrasse depois de descer do autocarro, tal era a aflição.

Saí na paragem do 46 antes da Estação de Santa Apolónia, atravessei a Infante D. Henrique, meti-me pelas ruelas que vão dar ao ISPA e logo encontrei o convidativo local, perfeito para satisfazer o meu desejo – um pequeno largo com jardim e tudo.

Saquei da minha espingarda de carne e de imediato saiu um esguicho amarelado. Estava eu a deleitar-me de prazer e entretido a fazer desenhos na parede quando ouvi alguém dizer:
- O shôr aí, fachavôr!

Olhei atónito e fiquei branco. Tantas vezes ali passara e nem me tinha lembrado que a continuação do mural ia dar precisamente à porta da esquadra da PSP (ainda lá está, mesmo no início da Rua do Museu de Artilharia).

Nem pestanejei e fui dentro, mas depois de algum mete-medo-aos-miúdos por parte dos agentes da autoridade (muito gosto desta expressão) lá levei a merecida reprimenda e segui caminho. Tudo isto para vos introduzir em mais uma apetitosa viagem, desta vez sobre o desconhecido e incompreendido mundo das casas de banho públicas.

No número 26 da mais famosa avenida de Paris (França), os Campos Elísios, há casas de banho públicas requintadas, os Point WC. Além de loja e artigos em exposição, podemos aliviar a tripa ao módico preço de €1,5 num sítio onde o ambiente mais parece o de um salão de beleza ou SPA, no qual somos recebidos por senhores de fato e gravata. Trata-se, verdadeiramente, de uma nova dimensão…

Na Áustria, mesmo por baixo da Ópera de Viena, uma das mais conceituadas casas de música do planeta – e apenas por alguns trocos –, podemos defecar ou mijar bem pertinho do palco e acompanhados por valsas vienenses. Cada compartimento está devidamente decorado e é possével escolhê-los de acordo com o nosso estado de espírito. Permitam-me uma sugestão: o género minimal repetitivo não me parece ser boa opção.

As casas de banho públicas instaladas em 1998 em Kawakawa, na Nova Zelândia (a fazer lembrar o catalão Antoní Gaudí), foram a derradeira obra do artista austríaco Friedrich Hundertwasser antes de morrer e tornaram-se pólos de atracção turística. Estão sempre impecavelmente limpas, apesar de não haver portas e de não terem vigilância.

Exemplo de asseio, no Japão também se dá bastante importância aos lavabos. Em Ito, existe até um parque temático muito visitado por turistas com casas onde se podem fazer as necessidades fisiológicas e que fariam inveja a muitas onde vivemos. Amantes das tecnologias e amigos do ambiente, os nipónicos fazem a reciclagem dos dejectos líquidos e sólidos em circuito fechado.

Na famosa estância balnear de Mooloolaba, na Austrália, o lugar do passeio marítimo da praia que tem melhor vista para o mar é o ocupado pelas casas de banho públicas, isto num país/continente dotado de um de serviço oficial onde podemos procurar o lavabo mais próximo através da Internet em The National Public Toilet Map. Muito à frente!

Estes exemplos de bom comportamento em espaços públicos de povos civilizados contrastam com os actos de vandalismo verificados em Inglaterra, precisamente o reino onde foi inventado o trono. Ali, pelo contrário, combate-se as condutas anti-sociais e, em Londres, os locais abertos das casas de banho públicas têm videovigilância para prevenir a selvajaria. Não faltará muito até que existam também câmaras nos cubículos privados onde nos sentamos sofredoramente para limpar o intestino grosso…

Na capital inglesa houve igualmente a moda dos urinóis telescópicos (os urilift), objectos de ficção científica que saem do chão para satisfazer as vontades másculas, nomeadamente nas noites passadas a emborcar cervejas nos bares. No entanto, a entrada em vigor da lei para a igualdade dos sexos no Reino Unido, em Abril de 2007, condenou aquela solução.

Em larga medida, as casas de banho são criadas a pensar mais nos homens. Por isso, para as mulheres, ter de partilhar uma com o sexo oposto constitui um verdadeiro pesadelo. A pensar nisso, o designer Philippe Starck tornou-se na primeira pessoa a instalar em França um urinol ergonomicamente pensado e exclusivamente para o uso da passarinha, fantástico em termos de higiene e conforto. Contudo, elas recusaram-se a lá meter a perereca. O objecto foi sistematicamente vandalizado e destruído, pelo que se viram obrigados a retirá-lo.

Com a inflação do mercado imobiliário, alguns dos antigos lavados subterrâneos de Londres foram vendidos e transformados em bares. Para compensar a falta de urinóis públicos, a câmara local assinou mesmo um acordo com as lojas para estas abrirem as suas casas de banho ao público em geral, mas um dos problemas é que os lojistas continuam a ter o direito de recusar a entrada a quem quiserem.

No futuro, de modo a podermos evitar actos de barbárie das casas de banho e para que estas permaneçam acessíveis a todos, sem grandes luxos ou sofisticados equipamentos de segurança, poderemos ter de voltar ao tempo dos Romanos, onde era comum a defecção pública. É o que acontece, por exemplo, no Washington Square Park, em Nova Iorque.

19 de março de 2009

A odisseia do trono no Odisseia, parte 1

Cerca de 2,6 mil milhões de pessoas não tem acesso a instalações sanitárias, enquanto os outros dois terços da população do planeta vivem como monarcas, porque possuir uma sanita em casa é quase como ter um trono.

Os solícitos designers quebraram a monotonia da simples ida aos lavados com o fabrico de uma multiplicidade de projectos, cada um deles ornamentado por um assento real único. A casa de banho pode ser a jóia da coroa das nossas casas, mas ainda constitui tabu para muita gente.

A revolução nas instalações sanitárias foi sempre conduzida pela elite, pelo que, nestes assuntos de cocós e segundo David Inglis, sociólogo da Universidade de Aberdeen, na Escócia, são sempre as classes mais baixas a seguirem as altas em termos de inovações relacionadas com assuntos de merda. Agora compreendo melhor por que razão andavam noutro dia uns pés descalços maltrapilhos a espiar várias vivendas da Quinta da Marinha, em Cascais.

Antoine Jullien, designer que também faz retretes, refere que "tem de haver uma sensação de bem-estar, temos de sentir algo quando entramos neste espaço. O meu desejo é que as pessoas que gozaram um dos espaços projectados por mim guardem uma memória agradável da sua visita". Tirando a vontade de cagar não estou bem a ver qual o outro sentimento a que se refere. Além disso, pelo preço de sentar as nádegas num trono feito por ele, acima dos 2000 euros, de certeza que cada deslocação ao assento se tornava inolvidável.

Nos Estados Unidos, Barney Smith, simpático canalizador reformado do Texas e por isso artista a tempo inteiro, possui uma garagem a que deu o pomposo nome de Barney Smith's Toilet Seat Art Museum e onde expõe mais de 800 tampos de sanita decorados por ele com as mais variadas coisas e sobre outros tantos assuntos: material dado pela Reserva Federal dos Estados Unidos que, segundo o octogenário quase nonagenário, vale um milhão de dólares, pedaços do muro de Berlim e do vaivém Challenger, que explodiu em 1986 por cima do Centro Espacial Kennedy, no Cabo Canaveral (Flórida), cinzas dum vulcão…

Outro artista de tampos, o belga Jean Lucien Guillaume, de Bruxelas, expõe as suas obras em conceituadas galerias e até fez uma parceria com a empresa OLFA, "L'un des leaders européens de la fabrication d'articles sanitaires. Innovation technique et diversité des décors", pode ler-se na página oficial da empresa na Internet.

Na Catalunha, qualquer presépio tem o seu El Caganer. É uma tradição do Natal da região tão enraizada que as pessoas já não o concebem sem ele. Trata-se de pequenos bonecos de barro, pintados à mão, que estão literalmente em posição cagativa de rabo à mostra e cujo montinho castanho os autores fazem questão de evidenciar. A explicação poderá ser esta: para se ter uma boa colheita é preciso fertilizar os campos com estrume e excrementos. Estas estátuas simbolizam a fecundação do presépio para o ano seguinte, tornando-o maior. Se este crescer, a família que escondeu o caganer verá também aumentar a sua riqueza e sorte.

Se aproveitarmos a promoção da página oficial, ficamos a saber que podemos comprar um caganer do Barack Obama ou da chanceler alemã Angela Merkel por 13,30 euros, em vez do preço habitual de 14.

Mas, ao que parece, a posição sentada a cagar é pouco natural para o homem, pois cria um ângulo entre o ânus e o recto, o que obriga os músculos a fazerem muita força e não permite a evacuação total da nossa matéria fecal. Isto poderá mesmo ser uma das causas dos nossos problemas intestinais, como a prisão de ventre. Antigamente cagávamos agachados, numa postura de relaxamento muscular. E não é isso que se pede? Depois vieram as sanitas e estragámos tudo.

Para nós ocidentais, o uso destas é uma questão cultural e estamos de tal forma habituados a sentarmo-nos que não concebemos outra forma de esvaziar o intestino grosso (a excepção talvez seja na tropa, como tive oportunidade de verificar quando a isso fui obrigado, felizmente por pouco tempo, onde apenas existem latrinas à moda antiga). E quando somos confrontados com hábitos de outras gentes sentimo-nos frequentemente incomodados e repugnados. Tínhamos tanto a aprender com a civilização oriental, o Japão, a China…

O filme ensina-nos igualmente o modo como devemos enterrar as nossas fezes quando nos dá o aperto no meio da natureza e não conseguimos evitar a rajada: devemos fazê-lo fora dos caminhos e abrir um buraco de 15 a 20 centímetros de profundidade com o tamanho que pretendemos – este ponto depende de pessoa para pessoa, por isso, se tiveram dúvidas, juntem as vossas últimas cagadas, pesem-nas e façam a média.

Não será preciso escavar muito, pois as melhores bactérias para decompor a matéria estão precisamente nos primeiros 15/20 centímetros do solo. Outras das hipóteses sugeridas é embrulhar bem as fezes (por exemplo em papel de prata) e levá-las connosco. Cabeça no ar como sou havia de ser lindo!

Para os ecologistas convictos está fora de questão o uso de papel higiénico – recomenda-se a utilização de pedras polidas, paus ou até pinhas. Antigamente a coisa ia com espátulas de madeiras ou folhas das árvores. O papel higiénico apenas surgiu no séc. XIX e, claro, foi inventado pelos americanos.

Gasta-se uma enormidade de papel higiénico neste planeta. Precisamente a pensar nisto, a indústria pegou no mais trivial deles, o branco de folha dupla, e transformou-o num produto de luxo às cores e destinado a um mercado de elite. Assim surgiu o portuguesíssimo Renova Black.

A publicidade da empresa é elucidativa:
Descubra o novo papel higiénico preto Renova: atreva-se a ser irreverente utilizando um produto na fronteira entre arte e decoração, o luxo e o mundano.
Produto ou objecto?
Descubra por si mesmo! Suavemente perfumado e com uma textura aveludada, dará um toque inconfundível à sua casa de banho.

O toque inconfundível de que falam não será só à casa de banho. Eu nunca experimentei, mas uma descrição destas deixa-me mesmo tentado.

O papel higiénico de luxo não é apenas um acessório e reflecte aspectos fundamentais da nossa sociedade. Se mostrarmos às pessoas que o temos na nossa casa de banho, damos a entender que possuímos classe e gosto refinado, embora nem uma nem outro impeçam de, aqui e acolá, os donos largarem indiscretas flatulências decididamente requintadas, tendo em conta o estrato social de quem as impeliu.

A excentricidade levou mesmo a Renova a criar a Gold Box, um distribuidor de papel no valor de 100 mil euros, para celebrar o primeiro milhão de rolos pretos vendidos. Por outro lado, um joalheiro francês fez um anel em ouro e pedras preciosas que representa uma sanita e está avaliado em 3500 euros. Mas o Japão, sempre na dianteira, foi mais longe que todos e produziu uma sanita verdadeiramente digna do traseiro de um monarca. Tem 26 quilos em ouro e vale a módica quantia de 375 mil euros.

10 de março de 2009

A fabulosa história dos cocós

Quando a televisão está ligada, é costume tê-la sintonizada nos canais História, Discovery ou Odisseia. A loucura é tal que confesso mesmo ter dezenas de DVD’s gravados com documentários sobre os mais variados assuntos relacionados com história, ciência, cultura, desporto, saúde, culinária e outros.

De repente, fui despertado por um teaser de promoção a um programa. Mandava assim: “Em Março, o Odisseia apresenta-lhe A Fabulosa História dos Cocós”. E a situação transportou-me aos tempos da minha infância, escatologicamente falando.

Ainda imberbe, lembro-me de os graúdos me mandarem ir às canas ou ao campo (conforme o local onde estava o menino da cidade) aliviar a tripa quando não havia cloacas disponíveis por perto, de andar por casa com as calças para baixo e pirilau à mostra a berrar “ó mãe, ó mãe, anda ver o meu cocó!”, de evacuar a ler qualquer revista sentado no trono, como ainda acontece e como ainda chamo às retretes, pois é ali que me sinto verdadeiramente rei.

Nem de propósito, o segundo dos quatro episódios do filme passa esta noite às 22 horas (repete às duas da madrugada e 13 horas de quarta-feira) e dá pelo nome de A Revolução dos Tronos. Falhei o primeiro (Em Nome da Rosa), mas não vou perder este nem os próximos, Em Nome do Trono e Excremento Sagrado.

O Odisseia informa que cada ser humano produz seis toneladas de cocó durante o seu tempo de vida. Custa a crer, não é? Freud dizia que este tema gerava incómodo porque nos fazia lembrar a nossa natureza mais animalesca. Pois, pois, sei bem o que esse tarado queria...

Hoje em dia, as fezes são utilizadas como fertilizante, material para a construção, para fazer sopa e até na cosmética. Um dos cafés mais caros e raros no mundo provém das caganitas de determinado macaco e, segundo consta, cheira bastante mal e sabe divinalmente bem.

Para lutar contra o odor desagradável dos cocós, alguns investigadores japoneses estão a desenvolver uma pastilha cujo objectivo é eliminar o fedor das nossas fezes. Parece que a indústria dos ambientadores está contra!

6 de março de 2009

O chocho é o que está a dar

E se, de repente, alguém te interpelar e espetar um apaixonado beijo na boca? Não te assustes, pois está apenas a zelar pela vossa sanidade. É que, segundo anunciou recentemente uma equipa de investigadores do Lafayette College, nos Estados Unidos, beijar, além de ser bom, diz quem percebe do assunto, também faz bem à saúde.

Os cientistas referem que quando um homem e uma mulher se osculam - não há menção às hipóteses homossexuais e lésbicas - são libertadas dois tipos de hormonas, o cortisol e a oxitocina, a primeira ligada à redução do stresse, nomeadamente no sexo masculino, a segunda vulgarmente denominada por "hormona do amor".

Mas todo o cuidado é pouco, não vos vá acontecer o mesmo que àquela pobre adolescente chinesa, quando, num arrebatador gesto de carinho, perdeu momentaneamente a audição no ouvido esquerdo ao dar um ardente chocho ao namorado. Assustada com a súbita surdez dirigiu-se ao hospital, onde os médicos a informaram que, apesar de não ser situação comum, um ósculo mais robusto pode causar desequilíbrio na pressão do ar entre os ouvidos e levar à perda da audição.

Dizem igualmente alguns especialistas que durante o acto de beijar colocamos 29 músculos faciais em movimento, pelo que poderá ser usado como exercício eficiente de prevenção ao aparecimento de rugas.

Estima-se ainda (não sei bem quem) que os sujeitos que se despedem das suas amadas quando as encontram, ou as cumprimentam depois de entrarem em casa, vivem mais cinco anos e ganham salários mais elevados do que os antipáticos que o não fazem. Os másculos desta última categoria tendem também a sofrer mais acidentes de automóvel, embora neste capítulo não esteja bem a ver qual é a relação nem a razão pela qual o postulado se refere aos homens.

Enfim, não se acanhem e toca a andar aos chochos a torto e a direito!

2 de março de 2009

Pêlos

Deitada a seu lado, esboçou um sorriso tímido quando, por entre a tosca luz da manhã que penetrava quarto adentro, os seus olhos meio ensonados descobriram os dele, naquele instante igualmente remelosos e regressados do sono dos justos. Num assomo de romantismo matinal, declarou em terno tom de voz:
– Bom dia, amorino! Tens um enorme pêlo branco a sair da narina…

Consta que a indiscreta, indesejável, intrometida e alva penugem rapidamente se desprendeu da penca em questão. Não foi tão falada quanto esta, mas outras pilosidades estiveram também em acesa discussão depois de a zelosa PSP de Braga ter mandado apreender uns livros expostos numa feira da especialidade, cujas capas reproduziam a pintura A Origem do Mundo (1866), onde Gustave Coubert nos oferece escarrapachada a basta farfalheira negra do sexo de uma mulher branca.

Antes de mais, parece-me demasiado pretensioso e excessivo que o francês tivesse descortinado ali, entre aquele matagal, a génese de tudo. Havia muito para desbastar e não é certo que, mesmo assim, o viesse a conseguir.

O artista mostra parte dos peitos da modelo que lhe serviu de inspiração, mas nem sequer lhe exibe a fronha, o que, salvo intenção erótica, pouco abona em prol da putativa figura e só vem dar razão a este postulado – trata-se de um feio exemplar da fêmea humana, provavelmente já bastante vivida.

Alheio a tudo isto não deve também ser o facto de o episódio censório se ter passado precisamente num burgo infestado de clérigos, conhecido até como a cidade dos arcebispos. Mas a mim ninguém me engana: só pode ter sido esse tipo de gentalha a estar por detrás da marosca, da denúncia às autoridades, pois é sobejamente conhecida a predilecção da padralhada por carnes tenras e peles imberbes.

25 de fevereiro de 2009

Uma questão de fé

A notícia fez-me voltar a ouvir os Faith No More, uma das minhas bandas preferidas de rock/metal. O grupo, liderado pelo excêntrico e multifacetado Mike Patton, anunciou o regresso aos palcos no próximo Verão, provavelmente para actuar nos festivais.

Vamos ver quem os consegue trazer cá - talvez um dos poucos motivos para me fazer gastar uns trocos valentes - depois da saudosa actuação no apinhado concerto da Praça de Touros do Campo Pequeno (Lisboa), ainda ao ar livre, a 29 de Junho de 1993, bem como daqueles que viriam a ser os derradeiros espectáculos do quinteto americano, cinco anos depois, na capital e no Porto.

23 de fevereiro de 2009

Vencido e convencido

Raios partam a Academia de Hollywood e o actor australiano Hugh Jackman! Tinha jurado a pés juntos não assistir em directo à cerimónia dos Óscares deste ano, talvez por ainda não ter visto qualquer dos filmes em competição.

Vai daí, enfiei-me na cama a ler, mas com um olho no burro e outro no cigano, que é como quem diz: a mirar ao mesmo tempo o livro e a televisão a meus pés.

Mas o início absolutamente surpreendente e desconcertante do evento, bem como tudo o que se lhe seguiu (excepção feita, talvez, aos cada vez mais entediantes momentos dos óscares musicais), teve o condão de me prender ao ecrã até final.

O tempo de renovação e esperança da grande nação americana, influenciado pela "Obamania", parece ter-se feito sentir na novamente inspirada indústria cinematográfica, em Los Angeles.

Acabei por me deitar tarde e a más horas e lá vou passar mais uma semana em dívida com o sono. Restam-me duas coisas: finalizar a leitura e ver pelo menos dois ou três películas premiadas. A primeira foi cumprida ao acordar na manhã seguinte, a segunda...

17 de fevereiro de 2009

Pechincha

O piso térreo do Terminal do Rossio recebe até ao final de Fevereiro a segunda edição da feira Há Livros na Estação.

No e-mail enviado a publicitar o evento a entidade organizadora informa que o mesmo conta com a "presença de dezenas de editoras", "representadas por milhares de títulos" e que "oferece novidades a preços muito reduzidos".

Esta última parte é algo exagerada, mas no meio das pechinchas, mesmo encostadinho ao ilustre Lolita, de Vladimir Nabokov, encontrei bem baratinho (3€) o livro que ilustra esta prosa. Isto, claro está, para quem gosta do género.

Nota baixa de rodapé: contaram-me que um dos co-autores é um tipo porreiríssimo!

16 de fevereiro de 2009

A pele macia da Cicciolina

Na sequência do arrazoado anterior, partilho o saudoso rasgo – o único realmente digno de nota – dito pela Cicciolina numa entrevista à revista Visão, algures no ano passado, quando amadrinhou a edição anterior do salão erótico do Porto: "Praticar tanto sexo fez-me bem à pele".

Não está ainda provada a causa-efeito do postulado, porque a única coisa que sabemos ao certo é que ser estrela do mundo porno levou-a até ao Parlamento italiano. Nada mau!

13 de fevereiro de 2009

Outras cavalgadas

Desconheço se, tal como Charles Darwin no séc. XIX [referência ao postado anterior a este], também a Cicciolina chegou a cavalgar nos Açores. Temo que não tenha tido tempo, nem sequer paciência, para ler A Arte de Bem Cavalgar a Toda a Sela, escrita pelo nosso eloquente rei D. Duarte.

Nem sei mesmo se, para treinar a espécie de espargata com que antigamente brindava os ávidos olhos alheios nas suas sexuais maratonas olímpicas, a antiga diva da pornografia não terá precisado de alguém para a ajudar a escarranchar, ou seja, a pô-la em cima do cavalo abrindo-lhe muito as pernas, tal e qual vem no dicionário.

Passei completamente ao lado do filme Cicciolina, Chocolate e Bananas, decerto sétima arte de primeira apanha dos idos de 1986 – o ano em que Diego Maradona deu cabo dos ingleses no Mundial do México e fez a Argentina campeã do universo e arredores – e a falha, da qual chego até a sentir angústia, ensombrou com certeza a minha adolescência.

Por isso, se estiverem no Porto – ou melhor, em Gondomar, local exacto da mostra – não deixem de aproveitar a oportunidade, pois a antiga deputada do Parlamento transalpino é a madrinha do evento e vai lá estar a distribuir fruta na ainda terra de pintos e loureiros.

Entretanto, em Lisboa, como referi aqui mesmo em baixo, pode ver-se A Evolução de Darwin. É a ciência – na lata acepção da palavra, não duvidem – a atacar em força, tanto na capital como na Cidade Invicta.

12 de fevereiro de 2009

Darwin na Gulbenkian

Inaugurou hoje, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, a exposição A Evolução de Darwin, precisamente no dia em que se assinalam os 200 anos sobre o nascimento do naturalista inglês Charles Darwin.

A mostra, patente até 24 de Maio, celebra igualmente século e meio da publicação do livro A Origem das Espécies (On the Origin of Species by Means of Natural Selection no original), obra fundadora da teoria da evolução.

E promete ser de arromba e imperdível, pelo menos a julgar pela newsletter em que, José Feijó, comissário da exposição, refere que esta terá presente "os vários acontecimentos que marcaram a vida de Darwin e que se reflectiram na formação do cientista, com destaque para a viagem que realizou, aos 21 anos, no barco Beagle. (...)

A exposição vai prolongar‑se para o jardim, acolhendo vários exemplares de animais cedidos pelo Jardim Zoológico (iguanas, tartarugas, tatus) e várias plantas, recriando a fauna e a flora que Darwin encontrou nesta viagem, com as impressões registadas nas páginas dos seus diários."

Darwin em Cabo Verde e nos Açores
Num artigo intitulado O Erro de Darwin e publicado na edição portuguesa da revista National Greographic de Fevereiro, Luís Tirapicos explica que "o HMS Beagle, com Darwin a bordo, partira de Davenport [Inglaterra] a 27 de Dezembro de 1831, ancorando na actual Cidade da Praia [Cabo Verde] a 16 de Janeiro".

Esta foi a primeira paragem da sua rota, cujo objectivo "era concluir o levantamento topográfico da Patagónia e da Terra do Fogo, bem como realizar medições cronométricas em torno do globo. A circum-navegação duraria quase cinco anos. O aspecto vulcânico de Santiago, a aridez da ilha e a pobreza dos seus habitantes impressionaram Darwin".

Mais à frente, o autor continua: "Depois de passar pelo Brasil, onde a exuberância da floresta tropical fez as delícias do jovem naturalista, a expedição contornou a América do Sul, acedendo ao Pacífico pelo estreito de Magalhães. Só quatro anos mais tarde, o Beagle voltaria ao Brasil e a Cabo Verde, já na rota de regresso à Grã-Bretanha.

A 20 de Setembro de 1936, o navio ancorou na ilha Terceira, nos Açores. O passeio a cavalo e os seis dias de estadia, antes do regresso a Inglaterra, não parecem ter marcado Darwin, que no seu diário da viagem descreve a ilha com a expressão: «Gostei do meu passeio, mas nada vi que merecesse ser visto».

Perdão?!?!

"No entanto", prossegue, "as ilhas, esses imensos laboratórios naturais, foram uma peça fundamental na construção das teses darwinistas". (...) "Fatigado e limitado à ilha Terceira, onde a ave não nidifica [referindo-se à existência, na Graciosa, de uma nova espécie, o painho-de-monteiro, que recebeu o nome do seu descobridor, o biólogo Luís Rocha Monteiro, desaparecido prematuramente em 1999, aos 37 anos], o naturalista obviamente não prestou lhe atenção, da mesma forma que nada viu de relevantes na biodiversidade açoriana".

"Depois de quatro anos no mar, Darwin estaria cansado e desejoso de voltar a casa", escreveu António Frias Martins, responsável pelo Centro de Investigação em Biologia e Recursos Genéticos da Universidade dos Açores, em São Miguel.

Ah bom!

Mais informações sobre o assunto também no blogue de apoio à exposição.

Imagem de Darwin tirada daqui

10 de fevereiro de 2009

As vacas felizes, os "bifes" nem por isso

Em época de crise e com saudades do tempo das vacas gordas, volto à vaca fria para falar da relação entre vacas felizes e produção de leite. É que segundo um estudo elaborado pela Universidade de Newcastle, em Inglaterra, divulgado no jornal académico local Anthrozoos, no final do mês passado, os investigadores chegaram à conclusão que as vacas mais felizes produzem mais e melhor leite.

Tem a palavra Catherine Douglas, da Escola de Agricultura, Alimentação e Desenvolvimento Rural da universidade: "Tal como as pessoas reagem melhor ao contacto pessoal, as vacas também se sentem mais felizes e descontraídas se forem alvo de atenção personalizada. Ao dar maior importância individual, tal como chamar a vaca pelo seu nome [implica dar-lhe um, Cornélia, por exemplo] ou interagir mais com o animal, estamos não só a contribuir para melhorar o seu bem-estar e a sua percepção dos humanos, como também a fomentar a produção de leite".

A análise incidiu sobre 516 produtores de leite e o aumento anual foi na ordem dos 284 litros.

Mas no país das vacas loucas, os "bifes" – não esses… o nome pelo qual aqui são mais conhecidos os habitantes daquela ilhota – têm menos razões para sorrir do que os conterrâneos mamíferos malhados de quatro patas, pois a revista americana Foreign Policy elegeu precisamente a Grã-Bretanha como a nação em maior risco de seguir os passos da exemplar Islândia no que toca à ruína económica e ao colapso político.

Aqui fica o Top 5 da lista:
1º Grã-Bretanha
2º Letónia
3º Grécia
4º Ucrânia
5º Nicarágua

Portugal não consta: que grande vaca a nossa!

2 de fevereiro de 2009

Voz quente

Lá fora muito vento, frio e chuva a potes, dentro do Jardim de Inverno do São Luiz a voz quente de Jacinta em estilo café concerto, acompanhada apenas por piano e saxofone. Lamento informar mas estão esgotados os últimos espectáculos, na quinta, sexta e sábado próximos.

Post-scriptum: Pois é, depois desta minha sugestão, o São Luiz anunciou mais três datas (26, 27 e 28 de Fevereiro), devido à imensa procura que esgotou as sessões anteriores! Um enorme bem-haja aos informadores...

30 de janeiro de 2009

Fina pena

XI

Não logrou abafar o grito que lhe subia à garganta e, ao mesmo tempo que ouvia o som rouco de angústia da sua alma, sentiu o corpo da mulher estremecer sob o seu e gemer, não de gozo, mas de dor e medo, que se espelhavam nos seus olhos, agora abertos, a mirá-lo na fraca luz da candeia acesa.

Apercebeu-se de a ter magoado pela violência com que lhe tomara o corpo, na última noite, apalpando-lhe os seios e as nádegas, mordendo-lhe os mamilos e os lábios até ao sangue, para nele afogar as dolorosas recordações que não cessavam de o atormentar, e retirou-se bruscamente de dentro dela, para lhe evitar o olhar. Estendeu-se de costas, a seu lado, deixando todavia a mão pousada no seu corpo que ela já não cobriu com o lençol, como fazia outrora nos primeiros tempos de casados, mesmo estando às escuras, por pejo e modéstia, virtudes que ele a pouco e pouco fora conquistando e derribando, até não haver mais barreiras para os seus olhos e as suas mãos, nem para os jogos de amor.

― Tratais-me como se fora vossa barregã e não vossa esposa… e eu já tive de mentir ao meu padre confessor! ― barafustava com zanga na voz, mas que o riso desmentia, sempre que ele a abraçava em qualquer quarto sem gente, enfiando-lhe as mãos por baixo das saias e do corpinho, ou quando, de noite, lhe arrancava a camisa e se ajoelhava junto do leito, de candeia acesa na mão, a admirar-lhe o corpo de menina que mal acabara de se fazer mulher, mas cuja perfeição o enfeitiçava a ponto de lhe fazer esquecer os malogros da sua vida.

― Um marido não pode olhar e amar à sua guisa o corpo da esposa? ― perguntara-lhe um dia, acariciando-a, atiçando-lhe os zelos, por zombaria: ― Ou deverá guardar esses prazeres apenas para as suas escravas e barregãs?

Depois de regressar da sua viagem ao cabo de África e cansado de esperar pela missão ao Oriente que não havia meio de chegar, decidira desposar a sua gentil prima e constituir família, união bem aceite não só na terra como nos Céus, pois fora abençoada com dois belos filhos varões. Tardara, todavia, a ajustar-se à vida tranquila das gentes de terra, confrontado por toda a sorte de constrangimentos e defesos que os bons costumes, reforçados pela censura de Igreja, lhe impunham e dos quais o ter muito visto e a constante presença da morte o haviam libertado, a ponto de causar escândalo à sua própria família.

― Por mim, não hajais empacho, meu senhor ― replicara, assanhada e num tom nada respeitoso, apesar do tratamento que lhe dera ―, se a tal vos avezaram as negras cafras que levastes na vossa viagem de descobrir…

Deixara-a só e em lágrimas, desarvorando porta fora, esmagado pelas recordações que a muito custo lograra enterrar nos escaninhos da sua alma. A história das escravas que transportara na caravela para lançar nos lugares novamente descobertos era um assunto tabu (palavra que elas lhe tinham ensinado) de que nunca falava e, se o não pudesse evitar, limitava-se a dar a versão contida no relatório entregue a el-rei D. João II.

Nessa noite, regressara a casa bem tarde e, ao entrar no quarto, achara a esposa deitada, mas desperta e… com a candeia acesa. “Deixai estar a luz” rogara baixinho, com os olhos inchados de pranto, quando ele se deitara a seu lado. Estava nua e amara-o pela primeira vez com o ardor e a raiva de ciosa amante.

― Sofala… em que lugar está?
A voz sossegada despertou-o bruscamente e ele apoiou-se num cotovelo para lhe ver o rosto, suavizado pela ternura, mas os seu olhos tinham perdido o brilho da alegria.
― É no reino do Monomotapa, na costa oriental da África.
― Depois do Cabo das Tormentas…
A voz quebrou-se-lhe num soluço, de pronto sufocado, e ele ralhou-lhe com doçura, para lhe desanuviar a tristeza:
― Cabo da Boa Esperança, queres tu dizer, mulher! Assi foi registado no Padrão Real e copiado para as novas cartas de marear.

Amaldiçoou-se intimamente por nem na cama com a mulher deixar de pensar na cópia do padrão que acabava de ser roubada e já devia ir a caminho de algum cobiçoso reino ou ducado além-fronteiras. Buscou desanuviar o espírito com um jogo:
― Vou mostrar-te onde fica Sofala, numa carta secreta que só eu possuo e é mais preciosa do que todas as que o próprio [Pedro Álvares] Cabral leva na sua nau capitoa.
― Uma carta de marear secreta? Onde…
― Não te mexas!

Olhou o corpo da mulher como se o quisesse gravar para sempre na memória, maravilhado de ver quem nem a prenhez ou os partos, nem mesmo o desmancho que sofrera, o tinham deformado. Pelo contrário, a maternidade fizera desabrochar o seu corpo, arredondando-lhe as formas ao modo das deusas pagãs. Com o dedo esticado, desenhou-lhe sobre a pele lisa e macia, logo acima dos seios, uma linha direita.

― Aqui fica o Norte de África, Marrocos e os montes do Atlas…
Ouviu-a rir e o seu dedo seguiu minuciosamente a curva do seio, sentindo-lhe o arrepio à flor da pele, aflorou a auréola rosada e o mamilo endureceu e fez-se rubro como um bago de romã.

― Aqui Mazagão… ― sussurrou e o seu indicador contornou o seio voluptuoso ― a curva do Cabo Bojador, a Guiné… e estes sinais, as ilhas de Cabo Verde onde se faz a aguada ― poisou os lábios sobre as minúsculas manchas e prosseguiu, iniciando a descida para a linha da cintura: ― aqui a [São Jorge da] Mina…
― Já estiveste em todos esses sítios! ― riu-se de novo, com malícia.

O dedo completou a curva, flectindo para a linha do ventre e a mulher contorceu-se numa crispação de cócegas.
― Agora a derrota [termo que significa: rumo que seguem os navios; rota; percurso; viagem; itinerário] de Diogo Cão… as terras de Manicongo… aqui a Serra Parda ― os seus lábios pousaram no umbigo ―, onde dei começo às minhas descobertas… a terra de Santa Bárbara, o Golfo de S. Tomé… e mais abaixo a Angra das Voltas, lugar do meu primeiro padrão…

A voz tremeu-lhe e a mão afagou o triângulo macio entre as suas pernas e dos lábios da mulher soltou-se um profundo suspiro.
― E aqui dobrei eu pela primeira vez este teu Cabo das Tormentas…

As coxas, unindo-se num espasmo de desejo, aprisionaram-lhe os dedos na concha do ventre e ele deixou-se tombar sobre o seu corpo para a possuir de novo com o desespero de quem teme perder um bem precioso ou busca o olvido de uma culpa pungente que jamais cessara de o atormentar.

O Navegador da Passagem, de Deana Barroqueiro