13 de outubro de 2009

Fanfarrão e fumoso

Passaram ontem 517 anos sobre a chegada de Cristóvão Colombo às Américas, em 1492, ao serviço dos Reis Católicos de Espanha, Fernando e Isabel, isto depois de ter sido posto a andar por D. João II, O Princípe Perfeito.

O ufano queria alcançar as Índias por Ocidente e estava convencido que aportara à Ásia Oriental. Ainda assim, originou um dia feriado no país vizinho e não foi de estranhar os magotes de espanhóis a vaponearem-se pela Baixa de Lisboa durante o fim-de-semana prolongado.

Em baixo, excerto do excelente livro O Navegador da Passagem, de Deana Barroqueiro, onde a certa altura aparece a manhosa personagem (páginas 34-36):

Findava o ano de mil quatrocentos e oitenta e seis e D. João II exultava com os resultados obtidos pelos seus servidores de confiança – navegadores, aventureiros e espiões – tanto ao leme das caravelas de descobrir como nas surtidas dos navios de corso ou no dorso dos camelos das caravanas dos desertos.

– Fizemos o ninho atrás da orelha aos nossos primos de Castela – gabava-se, cheio de confiança, na reunião dos seus homens do mar com os matemáticos, astrónomos e geógrafos da corte. – A descoberta da passagem para o Índico abriu-nos o caminho para as Índias e deu-nos o trato das especiarias que eles tanto cobiçam. (...)

– Ao dobrar o cabo de África, o vosso escudeiro Diogo Cão causou grande despeito ao fanfarrão Cristóvão Colombo – lembrou ainda Mestre Rodrigo das Pedras Negras, o físico d'el-rei, soltando uma discreta gargalhada. – Ele jura e tresjura que a sua derrota é a mais curta do que a nossa, dizendo ainda que o cosmógrafo Piero Toscanelli o aconselha a alcançar a Índia numa viagem de circum-navegação por Ocidente, em vez de ir por África.

– O rebolão ameaça ir oferecer os seus serviços a Castela, se Vossa Alteza não lhe der aviamento – preveniu o escudeiro Pêro da Covilhã, o mais expedito espião d'el-rei, sempre a par de tudo o que se passava dentro e fora da corte.

– Pois que vá muitieramá! Dizer que as Índias estão mais cerca indo para Ocidente parece-me fantasia tirada do livro de Marco Polo e se lhe dei permissão para falar com os meus astrónomos foi para me livrar dele. Talvez assi esse fumoso deixe de me importunar com a jactância dos seus méritos e perícia de navegar. (...)

– Muito do que Colombo sabe de navegação no Atlântico – insistia [Duarte] Pacheco Pereira – aprendeu-o nos nossos navios da derrota da Mina e da Guiné (...)

– Os seus cálculos estão todos errados – assegurou Mestre Rodrigo, com desprezo. – Desconfio que não sabe sequer usar o astrolábio para tomar a altura do sol e calcular a latitude!

9 de outubro de 2009

A minha rua dava um filme

Quando cheguei a esta rua, o piso térreo existente em frente à porta do meu prédio estava ocupado por um gabinete de arquitectos antes de mudar para o ramo das bruxarias, mezinhas e assuntos transcendentais.

Mas neste tempo de eleições autárquicas passou a ser sede de campanha de um candidato à junta de freguesia do bairro, de cuja lista faz parte também o dono da loja das chaves situada mesmo ao lado do local onde habito.

Cruzei-me com ele esta semana e interpelou-me de pronto:
- Você vota aqui?
- Já sei que está numa das listas mas nem eu nem a Mónica estamos recenseados nesta freguesia.
- Que chatice! É que nem eu posso votar em mim, pois acontece-me o mesmo...

Além dos estabelecimentos atrás enumerados, a artéria onde moro, no coração de Lisboa, prima pela variedade: tasca de fado vadio que só abre à noite; instrumentos musicais; cabeleiras postiças e afins; bazar esotérico; talho; adereços de Carnaval; vinis, CD's, DVD's e livros em segunda mão; florista; cabeleireiro unisexo; café ainda com mesas de tampo de mármore e pés de madeira; bar/massagista, listado no circuito gay e lésbico lisboeta, e aberto até de madrugada; pensão de 2ª categoria com entra e sai de gente a qualquer hora do dia ou da noite; restaurante indiano; mercearia; e, mais recentemente, computadores e Internet.

7 de outubro de 2009

Faça um seguro…

Como todas as pessoas que pediram dinheiro emprestado à banca, no meu caso para comprar casa, fui obrigado a fazer um seguro de vida. Só o fiz porque me vi forçado a tal, e até compreendo a posição dos homens do dinheiro, mas ultimamente parece que toda essa gentalha se juntou para tentar segurar-me das mais variadas maneiras. Da próxima vez que for abordado, respondo como neste texto de Miguel Torga, no Diário IV (Coimbra, 4 de Novembro de 1948):

‒ Faça um seguro…
‒ Deus me livre!
‒ Olhe que é útil! Morre-se, recebem os herdeiros; tem-se um desastre, pagam-nos o hospital; fica-se inválido, dão-nos uma pensão…
‒ Não teime. Eu gostava de me segurar mas para não morrer, para nunca ficar inválido, para não ser esmagado por nenhum automóvel… Agora segurar-me para depois dessas desgraças, não me interessa. Se o destino me ganhar o jogo, quero que ele assuma a responsabilidade do que fez!

Genial!

6 de outubro de 2009

Amália, hoje e sempre!

Estranha forma de vida (poema de Amália Rodrigues: 23/06/1920-06/10/1999)

Foi por vontade de Deus
que eu vivo nesta ansiedade.
Que todos os ais são meus,
Que é toda minha a saudade.
Foi por vontade de Deus.

Que estranha forma de vida
tem este meu coração:
vive de vida perdida;
Quem lhe daria o condão?
Que estranha forma de vida.

Coração independente,
coração que não comando:
vive perdido entre a gente,
teimosamente sangrando,
coração independente.

Eu não te acompanho mais:
pára, deixa de bater.
Se não sabes onde vais,
porque teimas em correr,
eu não te acompanho mais.

14 de setembro de 2009

Bonito, bonito!

Numa entrevista dada ao Carlos Vaz Marques na edição de Maio de 2008 da revista Ler, António Lobo Antunes, respondendo à pergunta sobre que colegas lusófonos de profissão admirava e respeitava, respondeu Pepetela, pela “obra profundamente honesta”, a “melhor qualidade que um escritor pode ter” e acrescentou:

“Gosto do José Eduardo Agualusa, por exemplo. Acho que é um homem que tem muito talento. Tem uma coisa rara em Portugal: muito sentido de humor a escrever. E depois é agradável olhar para ele porque é bonito. É um homem de uma simpatia e de uma modéstia muito grandes. Gosto muito dele.”

Cruzei-me com o visado na semana passada na livraria Bertrand do Chiado, ele a sair e eu a entrar, e – além de concordar com a primeira parte do que disse Lobo Antunes – pude comprovar também aquela antepenúltima frase. Morenaço do sol e corpinho bem cuidado, trazia na mão Jesusalém, do Mia Couto.

10 de setembro de 2009

Excessos de boa educação

Ao contrário do que tem sido habitual, desta vez não foi preciso deixar a contagem da electricidade escrita e colada na porta da rua num daqueles “post-it” amarelos.

Mal teve acesso ao local que procurava, o funcionário da EDP esboçou um sorriso cúmplice na minha direcção quando se deparou com o aparelho. Não lhe consegui ver o brilho nos olhos, talvez devido ao adiantado da hora. Madrugadora, que a noite, pelo menos para mim, parecia não ter ainda terminado:
– Ah… um bidiariozinho!, exclamou de felicidade.

Esta ternura de terminar as palavras com diminutivos dos nomes deixa-me derretido! Acontece muito nos restaurantes: E para beber? Muito bem... uma imperializita; e agora vai um cafezinho? Os excessivos modos educados também saturam.

9 de setembro de 2009

Notícia do dia

“E agora interrompemos por momentos esta notícia para assinalar as 9 horas e 9 minutos do dia 9 do 9 de 09”, diz a jornalista de serviço na Edição da Manhã da SIC Notícias exactamente à hora marcada.