13 de março de 2007

Típico humor britânico

A capacidade que uma pessoa ou um povo tem de conseguir gozar consigo próprio, pondo a nu os seus defeitos e as suas fraquezas, continua a fascinar-me. Por isso, sempre admirei o refinado e inspirador humor britânico. Os exemplos são muitos, mas tenho para mim que nunca ninguém – reparem na dupla negativa para reforçar a ideia – superou os fantásticos Monty Pythons.
Até a sisuda Margaret Thatcher, a primeira mulher a chefiar o Governo do Reino Unido, entre 1979 e 1990, não se imiscuiu pelos terrenos das irónicas tiradas humorísticas. Ou não tivesse sido, ela própria, a fonte de onde vários comediantes beberam inspiração.

A cena ocorreu no final de Fevereiro durante a inauguração da estátua em bronze da baronesa que passou a adornar os corredores da Câmara dos Comuns, em Londres. A obra precede uma outra, exposta em local diferente, feita em mármore e decapitada em 3 Julho de 2002 com uma barra de metal por Paul Kelleher, produtor de teatro, condenado a três meses de prisão em Fevereiro do ano seguinte pelo acto tresloucado.

No discurso de ocasião, a Dama de Ferro – actualmente com 81 anos e assim chamada pela forma determinada como levou a cabo reformas económicas que geraram forte contestação social – afirmou perante a gargalhada geral:
"I might have preferred iron but bronze will do"
"It won't rust. And, this time I hope, the head will stay on"

9 de março de 2007

Efeméride

Faz hoje precisamente 507 anos que zarpou com pompa e circunstância de Lisboa, mais propriamente de Santa Maria de Belém, a armada comandada pelo navegador Pedro Álvares Cabral e composta por dez naus e três caravelas. Nomeado capitão-mor pelo rei D. Manuel I para liderar a primeira expedição à Índia após o regresso de Vasco da Gama, Cabral desviou-se da costa do continente negro e avistou o Brasil a 22 de Abril de 1500, 43 dias após iniciar a epopeia.

Cientes de que havia terra defronte a África, conforme atesta a transferência do meridiano de divisão do mundo entre os reinos de Castela e Portugal no Tratado de Tordesilhas, em 1494, a frota perseguia objectivos mais abrangentes e integrava homens experientes como Bartolomeu Dias, o primeiro navegador a dobrar o Cabo da Boa Esperança – ou das Tormentas, assim chamado pelas dificuldades que impunha aos marinheiros –, o irmão deste, Diogo Dias, e Nicolau Coelho, um dos comandantes da expedição do descobridor do caminho marítimo para a Índia, além de Pêro Vaz de Caminha, cronista real.

Cabral nasceu no interior do país, presumivelmente em Belmote, na Beira Alta, mas foi o mar que o tornou famoso ao descobrir aquela a chamou terra de Vera Cruz.

8 de março de 2007

E Barcelona aqui tão perto...

Sempre tive alguma aversão a concertos de estádio e confesso que apenas numa ocasião paguei para assistir a um. Aconteceu com o do Sting no longínquo dia 1 de Agosto de 1993, em Alvalade. Ainda guardo religiosamente o bilhete – do tempo em que estes eram bem coloridos e não os papeis sensaborões de agora – que me permitiu o acesso ao relvado, bem perto do palco e da estrela.

Não sou muito dado a reuniões jurássicas, no que diz respeito aos grupos de música – parece que o Roger Waters disse que também não se importava de reunir mais vezes os Pink Floyd, depois da experiência do Live 8 –, mas confesso que aguardava com alguma expectativa a possibilidade de ver os Police ao vivo em Portugal. Isto depois de Sting ter anunciado o regresso aos palcos da mítica banda inglesa no início da actuação do trio, completado pelo divino Stewart Copeland e o cerebral Andy Summers, na festa anual dos Grammys, realizada a meio de Fevereiro deste ano, em Los Angeles, nos Estados Unidos. "Senhoras e senhores, somos os Police e estamos de volta!", atirou surpreendentemente o vocalista e baixista antes de cantarolar o Roxanne.

Soube-se agora que a digressão europeia incluída nas comemorações do 30º aniversário do aparecimento da turma, separada em 1986, não passará pelo mais ocidental país daquele que é conhecido como o Velho Continente. O périplo pela Europa começa a 29 de Agosto, em Estocolmo, na Suécia, e termina em Cardiff, no País de Gales, a 19 de Outubro, estando o concerto mais perto de nós marcado para Espanha, concretamente em Barcelona, no dia 27 de Setembro.

Para os interessados, ficam as datas europeias: Estocolmo, Suécia (29 de Agosto), Birmingham, Inglaterra (4 de Setembro) Londres, Inglaterra (8), Hamburgo, Alemanha (11), Amesterdão, Holanda (13), Praga, República Checa (16), Viena, Áustria (19), Munique, Alemanha (22), Paris, França (29), Düsseldorf, Alemanha (13 de Outubro), Manchester, Inglaterra (15) e Cardiff, País de Gales (19).

7 de março de 2007

Filmes mais vistos em 2006

Tinha prometido voltar ao assunto num texto anterior e cá está! O ICAM, Instituto do Audiovisual, Cinema e Multimédia, divulgou finalmente, na segunda-feira passada, os dados relativos à exibição cinematográfica em Portugal no período de 2005/06.

Com mais de 750 mil espectadores, O Código Da Vinci terminou 2006 como o filme mais visto nas salas de cinema lusitanas, num ano que registou assistências superiores a 16 milhões de pessoas (total de 16.367.429), um aumento de 613.318 e 3,89 por cento relativamente a 2005. Estes números proporcionaram uma receita bruta de 68.320.825,97 euros e significaram uma subida de 2,99 por cento nas receitas, equivalente a 1.983.449 euros.

Destaque igualmente para o português Filme da Treta, no décimo lugar, o único exclusivamente europeu a intrometer-se na hegemonia americana, presente nas outras 19 películas.

Os dez mais vistos (lista dos 20)
1. O Código Da Vinci, 756.770 espectadores
2. Piratas das Caraíbas - O Cofre do Homem Morto, 638.114
3. Idade do Gelo 2 - Descongelados, 493.374
4. Pular a Cerca, 422.251
5. 007 - Casino Royale, 375.162
6. Miami Vice, 307.788
7. Missão Impossível 3, 298.428
8. Eu, Tu e o Emplastro, 289.038
9. Infiltrado, 279.424
10. Filme da Treta, 278.421

6 de março de 2007

O prometido é devido

Ascensor do Lavra. Final da manhã de terça-feira, 6 de Março de 2007, antes de o tímido céu azul-claro passar a cinzento-escuro e começar a chorar, substituindo os risonhos raios de Sol...

2 de março de 2007

Pertinho de casa

Depois de cinco meses parado devido à derrocada de um prédio devoluto, voltou esta sexta-feira a funcionar o Ascensor do Lavra, situado na calçada com o mesmo nome, que liga o Largo da Anunciada à Travessa do Forno do Torel.

Classificado de Monumento Nacional desde 2002, é o mais antigo meio de transporte do género de Lisboa, tendo sido inaugurado a 19 de Abril de 1884. Prometo em breve tirar uma fotografia para a colocar no blogue, pois o dito fica situado bem pertinho de casa.

E porque não aproveitar os dias calmos de sábado e domingo, longe do bulício semanal, para passear pela cidade branca? Bom fim-de-semana!

1 de março de 2007

Filme com final feliz

Levado pela curiosidade dos Óscares, decidi ir ver ontem à noite ao saudoso Quarteto, onde não entrava há vários anos, o filme Entre Inimigos (The Departed), de Martin Scorsese. Tratou-se de um regresso às origens. Antes de mais, pelo despertar proporcionado pelo animatógrafo da Rua Flores do Lima para o fascinante mundo da sétima arte.

Memoráveis ficaram as maratonas ali passadas no aniversário do cinema, algures no Outono, em que cada sala, apinhada de gente, exibia vários filmes seguidos a preços reduzidíssimos. Numa dessas vezes, consegui mesmo cometer o feito de assistir à última sessão e abandonar o escurinho do cinema à luz do meio-dia.

O Quarteto abriu portas em 21 de Novembro de 1975, tendo sido gerido até 1999 pelo apaixonado Pedro Bandeira Freire, cinéfilo inveterado. Actualmente, a gestão do cinema está a cargo da empresa Carvalho & Pagará, Lda., conforme está escrito nos ingressos, cujo preço num dia normal é de quatro euros. Outrora local de frequência obrigatória, o primeiro multiplex do país sofreu as agruras da proliferação de mais e melhor oferta, e não acompanhou a exigência da procura quanto a assistir à projecção de um filme com condições técnicas superiores e numa sala a condizer.

O progresso parece não ter passado por ali, mas no ar sente-se a magia nostálgica e cheira-se a decadência do local, de tal modo que até chega a ser tocante. O mesmo símbolo: o nome grafado num pequeno pedaço de fita. "Quatro salas, quatro filmes" é ainda a frase que se lê no enorme letreiro que encima a cobertura das largas portas de entrada. Mantém-se o familiar café e esplanada no hall.


Anunciada às 21:45, a senhora da bilheteira apressa-se a comunicar que a sessão começa 15 minutos mais tarde. Expostas em vitrinas, as sinopses dos filmes em exibição são desbotadas folhas A4 imprimidas da Internet. Os próprios cartazes a anunciar as películas, estão encaixados toscamente à pressão, de modo a caberem naquele exíguo espaço que também informa os horários.

Electrónica para anunciar a sala e o título dos filmes é coisa que não existe. Por baixo do Entre Inimigos, a lembrar as distinções, há quatro estatuetas que parecem recortadas de revistas por crianças. Perto da hora, soa o gongo e a luz vermelha pisca a dar o toque a reunir para entrar no respectivo compartimento. Não há muita gente e talvez por isso ninguém aparece à porta para recolher os bilhetes. Apenas a empregada do bar deita o olho por detrás do balcão a controlar a cena.

Lá dentro, depois de subir os degraus, a cortina marca a ténue divisão entre a escada e a sala propriamente dita, ainda forrada por paredes de alcatifa, ou coisa parecida, e onde se mantêm as avermelhadas poltronas almofadadas de outros tempos, imunes às vertiginosas tendências actuais da arquitectura de interiores.


O filme começa. O barulho das bobinas é ensurdecedor e o som parece tirado de um disco de vinil mal tratado. Horizontalmente, a imagem não está centrada e um bocado da parte de cima aparece em baixo. Mas alguém, certamente habituado a estes filmes, levanta-se prontamente para avisar o projectista, cuja salinha situa-se logo ali ao lado, e o problema fica resolvido.

Às 23:20 (confirmei a hora a seguir), o filme pára, acendem-se as luzes e na tela as imagens do cada vez mais convincente Leonardo DiCaprio ou do sempre fabuloso Jack Nicholson são substituídas pela enigmática palavra intervalo em letras garrafais. Saem os viciados do fumo e os incontinentes do mictório. Quinze minutos volvidos, de novo o mergulho escuro. Já passa da meia-noite e meia quando tudo acaba.

Há lugares, como o Quarteto, com alma dentro. Que nunca mudam, ou mudam pouco, e nem por isso perdem o encanto próprio. Ainda bem. Possivelmente vou lá voltar. E sobre o filme, afinal o motivo que deu origem a esta prosa, considero exagerada a atribuição do título de melhor filme do ano.