2 de março de 2007
Pertinho de casa
Classificado de Monumento Nacional desde 2002, é o mais antigo meio de transporte do género de Lisboa, tendo sido inaugurado a 19 de Abril de 1884. Prometo em breve tirar uma fotografia para a colocar no blogue, pois o dito fica situado bem pertinho de casa.
E porque não aproveitar os dias calmos de sábado e domingo, longe do bulício semanal, para passear pela cidade branca? Bom fim-de-semana!
1 de março de 2007
Filme com final feliz
Levado pela curiosidade dos Óscares, decidi ir ver ontem à noite ao saudoso Quarteto, onde não entrava há vários anos, o filme Entre Inimigos (The Departed), de Martin Scorsese. Tratou-se de um regresso às origens. Antes de mais, pelo despertar proporcionado pelo animatógrafo da Rua Flores do Lima para o fascinante mundo da sétima arte. Memoráveis ficaram as maratonas ali passadas no aniversário do cinema, algures no Outono, em que cada sala, apinhada de gente, exibia vários filmes seguidos a preços reduzidíssimos. Numa dessas vezes, consegui mesmo cometer o feito de assistir à última sessão e abandonar o escurinho do cinema à luz do meio-dia.
O Quarteto abriu portas em 21 de Novembro de 1975, tendo sido gerido até 1999 pelo apaixonado Pedro Bandeira Freire, cinéfilo inveterado. Actualmente, a gestão do cinema está a cargo da empresa Carvalho & Pagará, Lda., conforme está escrito nos ingressos, cujo preço num dia normal é de quatro euros. Outrora local de frequência obrigatória, o primeiro multiplex do país sofreu as agruras da proliferação de mais e melhor oferta, e não acompanhou a exigência da procura quanto a assistir à projecção de um filme com condições técnicas superiores e numa sala a condizer.
O progresso parece não ter passado por ali, mas no ar sente-se a magia nostálgica e cheira-se a decadência do local, de tal modo que até chega a ser tocante. O mesmo símbolo: o nome grafado num pequeno pedaço de fita. "Quatro salas, quatro filmes" é ainda a frase que se lê no enorme letreiro que encima a cobertura das largas portas de entrada. Mantém-se o familiar café e esplanada no hall.
Anunciada às 21:45, a senhora da bilheteira apressa-se a comunicar que a sessão começa 15 minutos mais tarde. Expostas em vitrinas, as sinopses dos filmes em exibição são desbotadas folhas A4 imprimidas da Internet. Os próprios cartazes a anunciar as películas, estão encaixados toscamente à pressão, de modo a caberem naquele exíguo espaço que também informa os horários.
Electrónica para anunciar a sala e o título dos filmes é coisa que não existe. Por baixo do Entre Inimigos, a lembrar as distinções, há quatro estatuetas que parecem recortadas de revistas por crianças. Perto da hora, soa o gongo e a luz vermelha pisca a dar o toque a reunir para entrar no respectivo compartimento. Não há muita gente e talvez por isso ninguém aparece à porta para recolher os bilhetes. Apenas a empregada do bar deita o olho por detrás do balcão a controlar a cena.
Lá dentro, depois de subir os degraus, a cortina marca a ténue divisão entre a escada e a sala propriamente dita, ainda forrada por paredes de alcatifa, ou coisa parecida, e onde se mantêm as avermelhadas poltronas almofadadas de outros tempos, imunes às vertiginosas tendências actuais da arquitectura de interiores.
O filme começa. O barulho das bobinas é ensurdecedor e o som parece tirado de um disco de vinil mal tratado. Horizontalmente, a imagem não está centrada e um bocado da parte de cima aparece em baixo. Mas alguém, certamente habituado a estes filmes, levanta-se prontamente para avisar o projectista, cuja salinha situa-se logo ali ao lado, e o problema fica resolvido.
Às 23:20 (confirmei a hora a seguir), o filme pára, acendem-se as luzes e na tela as imagens do cada vez mais convincente Leonardo DiCaprio ou do sempre fabuloso Jack Nicholson são substituídas pela enigmática palavra intervalo em letras garrafais. Saem os viciados do fumo e os incontinentes do mictório. Quinze minutos volvidos, de novo o mergulho escuro. Já passa da meia-noite e meia quando tudo acaba.
Há lugares, como o Quarteto, com alma dentro. Que nunca mudam, ou mudam pouco, e nem por isso perdem o encanto próprio. Ainda bem. Possivelmente vou lá voltar. E sobre o filme, afinal o motivo que deu origem a esta prosa, considero exagerada a atribuição do título de melhor filme do ano.
23 de fevereiro de 2007
Descanso precisa-se...
Este sábado e domingo desforro-me. Oxalá os deuses estejam do meu lado e ao invés de chuva mandem sol, por pouco que seja, só para poder contemplar o azul do mar...
22 de fevereiro de 2007
As Vidas dos Outros
in Das Leben der Anderen (The Life of Others), 2006
Alemanha de Leste, 1984. Cinco anos antes da queda do Muro de Berlim, a população é mantida debaixo de controlo pela STASI, a polícia secreta da República Democrática Alemã (RDA). A sua missão é apenas uma: saber tudo sobre a vida de todas as pessoas, através de uma vasta rede de informadores/denunciadores. O filme acompanha a gradual desilusão do Capitão Gerd Wiesler (Ulrich Mühe, ele próprio nascido na RDA), um oficial altamente credenciado da STASI, cuja missão é espiar um famoso escritor, George Dreyman (Sebastian Koch), e a sua mulher, a actriz Christa-Maria Sieland (Martina Gedeck).Segundo o realizador, Florian Henckel von Donnersmarck – que por acaso nasceu no mesmo dia que eu –, “cada personagem coloca questões com as quais nos confrontamos todos os dias: como é que lidamos com o poder e as ideologias? Seguimos os nossos princípios ou os nossos sentimentos?"
As Vidas dos Outros é um drama sobre a bondade inerente ao ser humano, sobre fazer o que está certo e arrepender-se depois de ter trilhado o caminho errado. E sobre a capacidade de perdoar. Notável interpretação de Mühe, sempre em estado de contenção emocional. Nomeado para o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro. Uma das películas europeias mais surpreendentes dos últimos tempos, digo eu.
P.S. Completamente deslocada, idiota e sem sentido é uma das frases que aparece no cartaz original do filme em inglês e é tirada da revista Entertainment Weekly: "A nail-biter of a thriller!". Na versão portuguesa está escrito qualquer coisa como: "Um thriller que o vai deixar sem unhas para roer!"
14 de fevereiro de 2007
Coincidências
Por falar nisso, para quem não é adepto de efemérides como o Dia de São Valentim, mais uma invenção do Ocidente consumista, partilho convosco uma curiosidade que parece ter sido feita mesmo de propósito para as pessoas como eu.
Quiseram os deuses que a minha relação amorosa com a Mónica tivesse principiado precisamente num dia 13 – dizem ser o número do azar –, por sinal sexta-feira e aniversário da nossa amiga Catarina.
A noite fatal começou com um jantar a dois e prolongou-se madrugada adentro. O primeiro beijo, esse momento em que tudo anda à roda, aconteceu já depois das 12 badaladas que anunciaram o 14 de Fevereiro. Não acredito em bruxas, pero que las hay, las hay...
12 de fevereiro de 2007
Esta Lisboa que eu amo!
Aproveitando o evento do Dia dos Namorados, que se assinala no dia 14 de Fevereiro, a revista dominical do diário espanhol El Pais deixou 50 propostas relacionadas com a referida festividade.Avesso a qualquer tipo de comemorações do género, aniversários incluídos – a começar pelo meu –, apenas menciono o facto por se tratar de uma das sugestões do jornal mais lido no país de nuestros hermanos, como carinhosamente nos tratávamos em ambos os lados da fronteira no tempo dos ditadores Franco e Salazar.
E sabe sempre bem ouvir um elogio. O texto da publicação é ilustrado por uma foto do amarelo da Carris que percorre a mítica carreira 28 (não a que ilustra esta prosa).
«Próxima, inspiradora, melancolicamente decadente, inundada por cores e odores do Ultramar. Assim é Lisboa, uma cidade para passear em boa companhia, com um livro de Fernando Pessoa num bolso e uma reserva para jantar à luz das velas num restaurante do Chiado no outro. Lisboa é uma das cidades mais românticas do mundo, é o eléctrico a escalar até ao Bairro Alto, o entardecer no miradouro de Santa Luzia, a bruma do Atlântico a pousar sobre Alfama e o Castelo de São Jorge, e o mapa-mundo numa fachada de azulejos em Belém. Uma cidade para desfrutar enamorado». Sozinho ou acompanhado!
2 de fevereiro de 2007
Terreiro do Paço, a mais bela praça da Europa (III)
«(...) Devolvam-nos o Terreiro do Paço. Corram com os tapumes dali (...) e voltem lá a pôr o Cais das Colunas. Dez anos depois, é o mínimo exigível». Miguel Sousa Tavares, in Expresso (20/01/2007)
A 20 de Setembro de 1540, no Terreiro do Paço, Lisboa assiste ao primeiro auto-de-fé, autorizado por D. João III. Nesse dia, há vinte acusados, mas somente seis sobem à fogueira: três suspeitos de bruxaria - duas mulheres e um homem - e outros tantos cristãos-novos. Verdadeira expressão da dramaturgia do Barroco, o auto-de-fé torna-se o acontecimento mais grandioso e popular da vida lisboeta. Os cadafalsos, autênticas obras-primas da carpintaria, chegam a atingir quarenta metros de comprimento e vinte de largura.
É daquela bela praça que a multidão se despede de D. Sebastião quando ruma a Marrocos, com escala em Lagos, para a louca demanda africana e é lá que o povo se junta depois para lamentar a morte d'O Desejado e o desaparecimento dos entes chegados, pois não há em Lisboa uma única casa em que não se chore a morte de um marido, de um pai ou de um irmão. É lá, ainda, que a turba se acotovela para saudar o desembarque do rei Filipe III, de Espanha, e na altura também de Portugal.
Reconquistada da independência aos espanhóis - o domínio filipino durou sessenta anos, de 1580 a 1640 -, o Terreiro do Paço recebe os festejos em honra da duquesa de Mântua, Margarida de Sabóia, nomeada para governar Portugal, bem como as festas de casamento da infanta Catarina de Bragança, filha de D. João IV e D. Luís de Gusmão, com Carlos II de Inglaterra (1662) e de D. Pedro II com Maria Sofia de Neuburgo (1687), devidamente assinalados com duas touradas, acontecimentos bem ao gosto dos lisboetas - até à construção da praça da Junqueira, para os lados de Belém, a mando de D. Maria, o Terreiro do Paço será o local privilegiado dos espectáculos tauromáquicos.
Adaptado de História de Lisboa, de Dejanirah Couto
