19 de janeiro de 2009

Domingo no museu

O Museu Nacional de Arte Antiga (MNAA) tem exposto até 8 de Fevereiro o quadro Titus Sentado à Secretária, da autoria de Rembrandt (1606-1669), fruto de um intercâmbio com o Museu Boijmans van Beuningen, de Roterdão, que fez o São Jerónimo (1521), de Albrecht Dürer, zarpar até à Holanda.

Num dia chuvoso e tristonho como o de ontem, ir a um museu pode ser uma boa opção, por isso aproveitei a borla domingueira até às 14 horas e fui lá vê-lo.

A tela ocupa uma renovada e pequena salinha da casa cultural das Rua das Janelas Verdes, dedicada a exposições temporárias de desenho e gravura e a única que permite ver o tecto pintado do Palácio Alvor-Pombal, mandado construir no século XVII por D. Francisco de Távora, 1º conde de Alvor. (Pelo apelido do infortunado proprietário já devem estar a ver a razão do nome Alvor-Pombal...)

O desgosto provocado pela morte da mulher Saskia, em 1642 – precisamente o ano em que Rembrandt pintou o famosíssimo e enormíssimo Ronda da Noite, que eu contemplei embasbacado em Outubro último no Rijsmuseum de Amesterdão –, fê-lo parar de pintar durante algum tempo. Quando regressou aos rabiscos mergulhou num período algo soturno, de que esta peça, o retato do único filho de ambos que vingou a olhar sonhador para o infinito, é exemplo.

Estão lá as suas marcas, está lá o seu traço, principalmente o modo como utiliza a luz tão ao gosto dos artistas da Idade do Ouro neerlandesa, como Vermeer, Steen ou Hals, mas esta fase é agora mais soturna.

Além da referida peça, o museu holandês enviou igualmente uma série de três desenhos e cinco gravuras: um auto-retrato (c. 1657-58), "Saskia Uylenburgh à janela" (c. 1637-39), "Mulher de pé com criança ao colo" (c.1633-35), "Auto-retrato com sabre" (1634), "Auto-retrato com sua mulher Saskia Uylenburgh" (1636), "A mãe de Rembrandt com touca" (1633), "Anúncio do Anjo aos pastores" (1634) e "Adoração dos pastores" (c. 1654).

17 de janeiro de 2009

Não sei

Não sei porque diabo escolheste
Janeiro para morrer: a terra está tão fria.
É muito tarde para as lentasnarrativas do coração,
o vento continuaa tarefa das folhas:
cobre o chão de esquecimento.

Eu sei: tu querias durar.

Pelo menos durar tanto como o tronco
da oliveira que teu avôtinha no quintal.
Paciência, querido,
também Mozart morreu.

Só a morte é imortal.

de O Sal da Língua, Eugénio de Andrade (Escrito a 17 de Janeiro de 1995, dia da morte de Miguel Torga)

Tudo isto porque tenho saudades de Trás-os-Montes, o "Reino Maravilhoso" como lhe chamou o Torga.

15 de janeiro de 2009

The Best Job in the World

Querem fugir do frio e do rebuliço europeus, mudar radicalmente de vida e rumar ao Paraíso na Terra? Então candidatem-se (têm mais 37 dias para o fazer) àquilo a que os próprios proponentes denominam de O Melhor Trabalho do Mundo: vigilante das ilhas da Grande Barreira de Coral, na Austrália. Não acreditam? Então vejam aqui.

O jornal Público traz hoje uma peça sobre o assunto: "Trata-se de passar seis meses numa moradia com três assoalhadas e piscina, numa ilha tropical deserta ao largo da costa Leste da Austrália, em plena Grande Barreira de Coral. Horário laboral: 12 horas por mês. Funções: dar comida a peixes, recolher o correio e alimentar um blogue com fotos e relatos na primeira pessoa. Salário: 150 mil dólares australianos, qualquer coisa como 86.300 euros, ou 14.380 por mês."

Único problema: o potencial número de candidatos, pois em 24 horas houve mais de 200 mil visitas à página da Internet acima mencionada, de acordo com a autoridade de turismo do Estado de Queensland (ler notícia).

Clicar aqui para ver fotos dos vários ilhéus.

14 de janeiro de 2009

O tolo e o perito

Numa tertúlia realizada no Casino da Figueira da Foz, ontem à noite, o Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, alertou as catraias portuguesas pretendentes à desposa de que casar com um homem muçulmano seria sinónimo de um "monte de sarilhos".

Não vou perder tempo a tecer comentários sobre a tirada feita por parte de alguém responsável pela Igreja Católica, pois para falar de religiões só existe, para mim, uma divindade: o sociólogo Moisés Espírito Santo!

13 de janeiro de 2009

Menos de um igual a zero

Em parte devido a ter lido o excelente Casa de Campo, do desconhecido chileno José Donoso, descobri a Cavalo de Ferro, responsável por lançar no mercado um rol de autores cujas traduções portuguesas dos respectivos livros foram incompreensivelmente ignorados cá ao longo dos anos.

As razões para tal não são para aqui chamadas, embora estou certo que dariam um interessante debate sobre o mundo da edição em Portugal, mas esse é rosário de outras missas e gentes.

O que me traz aqui é o facto de ter subscrito a newsletter da editora. Preenchi os dados pedidos e, no final, pediram-me para responder a um pequeno questionário. Uma das três respostas possíveis à última pergunta deixou-me intrigado:

Quantos livros lê por mês?
- Menos de um
- De um a cinco
- Mais de cinco

Menos de um?! Talvez nenhum (ou zero) ficasse melhor...

Na calha está já outro clássico, Rayuela (à letra, o infantil e popular jogo da macaca desenhado no chão com giz), escrito em 1963 por outro sul-americano, o argentino Julio Cortázan, cujo título em português, 48 anos volvidos, é O Jogo do Mundo e tem prefácio de José Luís Peixoto.

O que tenho ouvido dele aguçou-me o apetite...

12 de janeiro de 2009

Ó Freud, interpreta lá isto!

Antes que as más-línguas corrompidas entrem em acção, certamente impulsionadas por esse tal de Edmund, esclareço não ter nada que ver com o facto de o pão em causa ser dotado de forma fálica. Adiante.

Estive de férias na semana passada e como me quedei pelo aconchego do lar o ritual repetiu-se todo o santo dia útil. Acordar por volta das oito e meia da madrugada, por força da mulher, separar-me da cama depois de ela sair porta fora, tomar o pequeno-almoço nas calmas, voltar a enfiar-me no edredão a ler e adormecer embalado pela escrita, voltando a despertar para a vida escandalosamente entre a uma e as duas horas da tarde.

E dormir muito dá nisto: sonhar em quantidade! Num desses devaneios, fui comprar pão a uma padaria, daquelas antigas, em que se vendem apenas moletes e quejandos ou bolinhos, pois sou avesso a modernices multi.

Espero a minha vez de ser atendido na confusão do estabelecimento, bastante concorrido pelo saloio cozido em forno de lenha.
- Bom dia, queria “aquele” pão, se faz favor!, apontei.
- Aqui tem.
- Quanto é?
- Dois euros.
Paguei com uma moeda de cinco e o homem deu-me dois euros de troco. Faltava um e, educadamente, assinalei o descuido.
- Olhe que não! (Onde é que eu já ouvi isto?), refilou ele.
- …

A peleja que se seguiu meteu braço-de-ferro, berros, livro de reclamações, ainda que não fosse preciso chamar polícia nem ASAE ou afins. Muito a custo chegámos à concialiação, pois não valia a pena tanto barulho por nada ou tão pouco e ele lá me deu o eurito em dívida. Quando acordo, extenuado, recordo-me de quase tudo e desato-me a rir: tudo isto e nem sequer há moedas de cinco euros!

Moral da história (todas são verdade mas aceitam-se outras interpretações):
- sou doido por pão;
- o pão está caro;
- devia haver moedas de cinco euros;
- reclamar compensa, ainda para mais quando se tem razão.

O caso deve-se ter passado na padaria em frente à Igreja de Nossa Senhora do Amparo, no centro de Benfica, local de onde peço ao meu pai para trazer o tal saloio cozido em forno de lenha, divinal, por sinal, que de pão entendo eu! Se não conhecem, experimentem um dia…

10 de janeiro de 2009

Estás velho, Tintin!

"A primeira aventura de Tintin começou há 80 anos no suplemento infantil do jornal belga Vingtième Siècle. Levou o herói ao País dos Sovietes e foi um sucesso imediato. Seguiram-se mais 22 aventuras do jovem repórter que conquistou um lugar à parte no imaginário colectivo."

Carlos Pessoa, in Público (10/01/09)

Vale a pena dar uma saltada a Bruxelas, nem que seja para ver a Grand Place e fazer o percurso pelos edifícios de Arte Nova, um dos quais onde fica situado o Centre Belge de la Bande Dessinée, da autoria do arquitecto Victor Horta. A foto é de Setembro do ano passado, quando voltei à capital da Bélgica depois de lá ter estado no friorento mês de Fevereiro de 2001.