Não sei porque diabo escolheste
Janeiro para morrer: a terra está tão fria.
É muito tarde para as lentasnarrativas do coração,
o vento continuaa tarefa das folhas:
cobre o chão de esquecimento.
Eu sei: tu querias durar.
Pelo menos durar tanto como o tronco
da oliveira que teu avôtinha no quintal.
Paciência, querido,
também Mozart morreu.
Só a morte é imortal.
de O Sal da Língua, Eugénio de Andrade (Escrito a 17 de Janeiro de 1995, dia da morte de Miguel Torga)
Tudo isto porque tenho saudades de Trás-os-Montes, o "Reino Maravilhoso" como lhe chamou o Torga.
17 de janeiro de 2009
15 de janeiro de 2009
The Best Job in the World
Querem fugir do frio e do rebuliço europeus, mudar radicalmente de vida e rumar ao Paraíso na Terra? Então candidatem-se (têm mais 37 dias para o fazer) àquilo a que os próprios proponentes denominam de O Melhor Trabalho do Mundo: vigilante das ilhas da Grande Barreira de Coral, na Austrália. Não acreditam? Então vejam aqui.
O jornal Público traz hoje uma peça sobre o assunto: "Trata-se de passar seis meses numa moradia com três assoalhadas e piscina, numa ilha tropical deserta ao largo da costa Leste da Austrália, em plena Grande Barreira de Coral. Horário laboral: 12 horas por mês. Funções: dar comida a peixes, recolher o correio e alimentar um blogue com fotos e relatos na primeira pessoa. Salário: 150 mil dólares australianos, qualquer coisa como 86.300 euros, ou 14.380 por mês."
Único problema: o potencial número de candidatos, pois em 24 horas houve mais de 200 mil visitas à página da Internet acima mencionada, de acordo com a autoridade de turismo do Estado de Queensland (ler notícia).
Clicar aqui para ver fotos dos vários ilhéus.
Único problema: o potencial número de candidatos, pois em 24 horas houve mais de 200 mil visitas à página da Internet acima mencionada, de acordo com a autoridade de turismo do Estado de Queensland (ler notícia).
Clicar aqui para ver fotos dos vários ilhéus.
14 de janeiro de 2009
O tolo e o perito
Numa tertúlia realizada no Casino da Figueira da Foz, ontem à noite, o Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, alertou as catraias portuguesas pretendentes à desposa de que casar com um homem muçulmano seria sinónimo de um "monte de sarilhos".
Não vou perder tempo a tecer comentários sobre a tirada feita por parte de alguém responsável pela Igreja Católica, pois para falar de religiões só existe, para mim, uma divindade: o sociólogo Moisés Espírito Santo!
Não vou perder tempo a tecer comentários sobre a tirada feita por parte de alguém responsável pela Igreja Católica, pois para falar de religiões só existe, para mim, uma divindade: o sociólogo Moisés Espírito Santo!
13 de janeiro de 2009
Menos de um igual a zero
Em parte devido a ter lido o excelente Casa de Campo, do desconhecido chileno José Donoso, descobri a Cavalo de Ferro, responsável por lançar no mercado um rol de autores cujas traduções portuguesas dos respectivos livros foram incompreensivelmente ignorados cá ao longo dos anos.As razões para tal não são para aqui chamadas, embora estou certo que dariam um interessante debate sobre o mundo da edição em Portugal, mas esse é rosário de outras missas e gentes.
O que me traz aqui é o facto de ter subscrito a newsletter da editora. Preenchi os dados pedidos e, no final, pediram-me para responder a um pequeno questionário. Uma das três respostas possíveis à última pergunta deixou-me intrigado:
Quantos livros lê por mês?
- Menos de um
- Menos de um
- De um a cinco
- Mais de cinco
Menos de um?! Talvez nenhum (ou zero) ficasse melhor...
Na calha está já outro clássico, Rayuela (à letra, o infantil e popular jogo da macaca desenhado no chão com giz), escrito em 1963 por outro sul-americano, o argentino Julio Cortázan, cujo título em português, 48 anos volvidos, é O Jogo do Mundo e tem prefácio de José Luís Peixoto.O que tenho ouvido dele aguçou-me o apetite...
12 de janeiro de 2009
Ó Freud, interpreta lá isto!
Antes que as más-línguas corrompidas entrem em acção, certamente impulsionadas por esse tal de Edmund, esclareço não ter nada que ver com o facto de o pão em causa ser dotado de forma fálica. Adiante.Estive de férias na semana passada e como me quedei pelo aconchego do lar o ritual repetiu-se todo o santo dia útil. Acordar por volta das oito e meia da madrugada, por força da mulher, separar-me da cama depois de ela sair porta fora, tomar o pequeno-almoço nas calmas, voltar a enfiar-me no edredão a ler e adormecer embalado pela escrita, voltando a despertar para a vida escandalosamente entre a uma e as duas horas da tarde.
E dormir muito dá nisto: sonhar em quantidade! Num desses devaneios, fui comprar pão a uma padaria, daquelas antigas, em que se vendem apenas moletes e quejandos ou bolinhos, pois sou avesso a modernices multi.
Espero a minha vez de ser atendido na confusão do estabelecimento, bastante concorrido pelo saloio cozido em forno de lenha.
- Bom dia, queria “aquele” pão, se faz favor!, apontei.
- Aqui tem.
- Quanto é?
- Dois euros.
Paguei com uma moeda de cinco e o homem deu-me dois euros de troco. Faltava um e, educadamente, assinalei o descuido.
- Olhe que não! (Onde é que eu já ouvi isto?), refilou ele.
- …
A peleja que se seguiu meteu braço-de-ferro, berros, livro de reclamações, ainda que não fosse preciso chamar polícia nem ASAE ou afins. Muito a custo chegámos à concialiação, pois não valia a pena tanto barulho por nada ou tão pouco e ele lá me deu o eurito em dívida. Quando acordo, extenuado, recordo-me de quase tudo e desato-me a rir: tudo isto e nem sequer há moedas de cinco euros!
Moral da história (todas são verdade mas aceitam-se outras interpretações):
- sou doido por pão;
- o pão está caro;
- devia haver moedas de cinco euros;
- reclamar compensa, ainda para mais quando se tem razão.
O caso deve-se ter passado na padaria em frente à Igreja de Nossa Senhora do Amparo, no centro de Benfica, local de onde peço ao meu pai para trazer o tal saloio cozido em forno de lenha, divinal, por sinal, que de pão entendo eu! Se não conhecem, experimentem um dia…
10 de janeiro de 2009
Estás velho, Tintin!
Carlos Pessoa, in Público (10/01/09)
Vale a pena dar uma saltada a Bruxelas, nem que seja para ver a Grand Place e fazer o percurso pelos edifícios de Arte Nova, um dos quais onde fica situado o Centre Belge de la Bande Dessinée, da autoria do arquitecto Victor Horta. A foto é de Setembro do ano passado, quando voltei à capital da Bélgica depois de lá ter estado no friorento mês de Fevereiro de 2001.
Vale a pena dar uma saltada a Bruxelas, nem que seja para ver a Grand Place e fazer o percurso pelos edifícios de Arte Nova, um dos quais onde fica situado o Centre Belge de la Bande Dessinée, da autoria do arquitecto Victor Horta. A foto é de Setembro do ano passado, quando voltei à capital da Bélgica depois de lá ter estado no friorento mês de Fevereiro de 2001.
9 de janeiro de 2009
A Viagem do Elefante
Lê-se quase de uma assentada e para os renitentes que nunca passaram os olhos pela escrita de José Saramago, seja por que razão for – mesmo aqueles que dizem não gostar sem terem lido uma linha sequer dos seus livros –, parece-me ser este um bom começo. Estão lá todas as marcas dele, que a sinopse em baixo até evidencia, embora não excessivamente.Da sinopse:
Em meados do século XVI o rei D. João III ofereceu a seu primo, o arquiduque Maximiliano da Áustria, genro do imperador Carlos V [casado com Catarina, que veio a ser avó de D. Sebastião], um elefante indiano que há dois anos se encontrava em Belém, vindo da Índia.
Do facto histórico que foi essa oferta não abundam os testemunhos. Mas há alguns. Com base nesses escassos elementos, e sobretudo com uma poderosa imaginação de ficcionista que já nos deu obras-primas como Memorial do Convento ou O Ano da Morte de Ricardo Reis, José Saramago coloca agora nas mãos dos leitores esta obra excepcional que é A Viagem do Elefante.
Neste livro, escrito em condições de saúde muito precárias, não sabemos o que mais admirar - o estilo pessoal do autor exercido ao nível das suas melhores obras; uma combinação de personagens reais e inventadas que nos faz viver simultaneamente na realidade e na ficção; um olhar sobre a humanidade em que a ironia e o sarcasmo, marcas da lucidez implacável do autor, se combinam com a compaixão solidária com que o autor observa as fraquezas humanas.
Escrita dez anos após a atribuição do Prémio Nobel, A Viagem do Elefante mostra-nos um Saramago em todo o seu esplendor literário.
Do livro:
"Escarranchado sobre o encaixe do pescoço com o tronco maciço de salomão, manejando o bastão com que conduz a montada, quer por meio de leves toques quer com castigadoras pontoadas que fazem mossa na pela dura, o cornaca subhro, ou branco, prepara-se para ser a segunda ou terceira figura desta história, sendo a primeira, por natural primazia e obrigado protagonismo, o elefante salomão, e vindo depois, disputando em valias, ora este, ora aquele, ora por isto, ora por aquilo, o dito subhro e o arquiduque." (pág.36)
"Uma coisa que custa trabalho entender é que o arquiduque maximiliano tenha decidido fazer a viagem de regresso nesta época do ano [pleno Inverno], mas a história assim o deixou registado como facto incontroverso e documentado, avalizado por historiadores e confirmado pelo romancista, a quem haverá que perdoar certas liberdades em nome, não só do seu direito a inventar, mas também da necessidade de preencher os vazios para que não viesse a perder-se de todo a sagrada coerência do relato. No fundo, há que reconhecer que a história não é apenas selectiva, é também discriminatória, só colhe da vida o que lhe interessa como material socialmente tido por histórico e despreza todo o resto, precisamente onde talvez poderia ser encontrada a verdadeira explicação dos factos, das coisas, da pura realidade. Em verdade vos direi, em verdade vos digo que vale mais ser romancista, ficcionista, mentiroso. Ou cornaca, apesar das descabeladas fantasias a que, por origem da profissão, parecem ser atreitos." (pág. 227)
Bom, e agora, com a vossa licença, vou mergulhar na nossa época de ouro, mais propriamente na vida de Bartolomeu Dias, protagonista de O Navegador da Passagem, de Deana Barroqueiro, livro do qual fiz referência há uns tempos. Então até ao meu regresso, pois este vou lê-lo nas calmas e com ajudas suplementares...
Bom, e agora, com a vossa licença, vou mergulhar na nossa época de ouro, mais propriamente na vida de Bartolomeu Dias, protagonista de O Navegador da Passagem, de Deana Barroqueiro, livro do qual fiz referência há uns tempos. Então até ao meu regresso, pois este vou lê-lo nas calmas e com ajudas suplementares...
Subscrever:
Mensagens (Atom)
