21 de novembro de 2008

A casa assombrada

Passa esta noite na RTP 1, ao início da madrugada de sábado (00h45), o filme Coisa Ruim (2005), realizado pela dupla Tiago Guedes e Frederico Serra, cujo argumento é de Rodrigo Guedes de Carvalho, jornalista da SIC, aspirante a escritor de romances e irmão do primeiro.

Com bom argumento e bela fotografia, bem como interpretações a preceito – desde a (ainda) revelação Afonso Pimentel a José Pinto, o atormentado padre Vicente –, a película de abertura da competição oficial do Fantasporto 2006 conta a história de uma família de Lisboa que recebe como herança uma casa numa pequena aldeia do interior do país e para lá se muda. Com ela, diz o povo, vem também uma maldição...

A referência e a dica surgem não apenas por realmente ter gostado do filme, mas porque o local onde foi filmada grande parte da acção se situar a escassos metros dos aposentos da minha avó paterna, no pequeno povoado de Torroselo (Seia), sobranceiro à serra da Estrela.

Nos saudosos verões lá passados, a miudagem – os da terra e os da cidade, como éramos chamados – intrigava-se com o mundo de mistério, aventura e medo que estaria por detrás daqueles altos muros, pois a frondosa mansão pouco utilizada pelos donos, emigrados no Brasil, parecia, de facto, assombrada.

Nota: O filme é exibido igualmente no TVC 1, disponível apenas para os assinantes deste canal pago da TV Cabo, a partir das 22h35 de quinta-feira, dia 27 de Novembro.

14 de novembro de 2008

11 de novembro de 2008

A não perder!

Em 1998, estive presente na noite da abertura oficial da primeira loja da FNAC em Portugal, no Centro Comercial Colombo, cujo ponto alto foi a actuação do músico sueco Jay Jay Johanson, então na berra depois de ter lançado dois excelentes discos, Whiskey e Tattoo.

Dez anos passados, no encerramento das iniciativas fotográficas literárias, cinematográficas e musicais que serviram para assinalar o início da aventura lusitana, a cadeia de lojas francesa – onde gastei literalmente alguns milhares de euros durante esta década – junta na sexta-feira, dia 14 de Novembro, os consagrados Xutos & Pontapés e Clã aos fascinantes Rita Red Shoes, Deolinda e Peixe : Avião.

Os bilhetes são gratuitos e para entrar no concerto do Pavilhão Atlântico, em Lisboa, basta levantar o ingresso na mais recente superfície do grupo, ali mesmo ao lado, no Centro Comercial Vasco da Gama.

Ouçam-nos no My Space e aproveitem a boleia para descobrir também o talento, a voz, o piano e a guitarra acústica de Vicente Palma, filho do Jorge!

24 de outubro de 2008

Maradona by Kusturica

O retrato do génio da bola repousa colado ao monitor do meu computador, num postal bem visível aos meus olhos. É da autoria do fotógrafo belga John Vink, da agência Magnum, e foi tirado a 29 de Junho de 1986, na final do Campeonato do Mundo de futebol, no México. (Vale a pena ler a entrevista de Vink à BBC (versão castelhana), por ocasião do Mundial da Alemanha, em 2006.)

Diego Armando Maradona não apontou qualquer tento na vitória da Argentina sobre a República Federal da Alemanha, por 3-2, ocorrida no Estádio Azteca, na Cidade do México, mas liderou a selecção das Pampas rumo ao triunfo na competição.

Galardoado com o troféu de melhor jogador do torneio pela FIFA, entidade tutelar da modalidade a nível mundial, El Pibe apontou cinco golos – menos um do que o inglês Gary Lineker – na 13ª edição da prova mais importante do calendário futebolístico do planeta, um deles num memorável slalon frente à Inglaterra.

Após ter anulado, aos, 51 minutos, a vantagem britânica na partida – com o igualmente célebre tento marcado com «a mão de Deus», como o próprio o qualificou pouco depois da contenda –, Maradona destruiu os sonhos do adversário volvidos três minutos, ao deixar pelo caminho meia equipa contrária antes de driblar o guarda-redes Peter Shilton e colocar a alviceleste nas meias-finais.

Anos mais tarde, a FIFA considerou-o o melhor golo do século XX.

Não vi jogar Garricha, o «anjo das pernas tortas», como carinhosamente lhe chamavam, Pelé ou Eusébio, a Pantera Negra. Dos jogadores que vi actuar, ao vivo ou através da televisão, na maior parte das vezes, nenhum chegou aos calcanhares daquele menino, nascido num bairro pobre de Buenos Aires.

Se a sessão não estiver esgotada podem ir vê-lo no olhar de Emir Kusturica, este sábado, às 21h30, na Culturgest, na sessão de encerramento do DocLisboa, o VI Festival internacional de Cinema Documental. Infelizmente, eu não posso devido a afazeres laborais.

21 de outubro de 2008

Triste fado

Segundo o relatório “Crescimento e Desigualdades”, divulgado esta terça-feira, Portugal é um dos países da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Económico (OCDE) com maiores desigualdades na distribuição dos rendimentos dos cidadãos, ao lado dos Estados Unidos e apenas atrás da Turquia e do México.

No documento, a OCDE afirma que o fosso entre ricos e pobres cresceu em todos os países membros nos últimos 20 anos, à excepção da Espanha, França e Irlanda, e traduziu-se num aumento da pobreza infantil.

O panorama não é animador e, para compor o ramalhete, entre Agosto deste ano e o mesmo mês de 2007, o crédito malparado aumentou 26,46% no total, 23,6% na habitação e 70% (!) no consumo. E os dados excluem o período da recente crise dos mercados financeiros.

Sempre que ouço notícias deprimentes sobre o meu pobre país vou a correr saciar-me com umas linhas de um livro de Martin Page, durante algum tempo correspondente em Lisboa do jornal inglês The Guardian e falecido em 2005, três anos depois de ter sido editada prosa e que, após o enorme sucesso, teve direito a versão portuguesa em 2008.

Com o título A Primeira Aldeia Global - Como Portugal Mudou o Mundo (The First Global Village - How Portugal Changed the World), é um tratado histórico de amor ao heróico povo que deu «novos mundos ao Mundo» mas teima em viver acima das suas possibilidades.

20 de outubro de 2008

Deolinda

«O seu nome é Deolinda e tem idade suficiente para saber que a vida não é tão fácil como parece, solteira de amores, casada com desamores, natural de Lisboa, habita um rés-do-chão algures nos subúrbios da capital. Compõe as suas canções a olhar por entre as cortinas da janela, inspirada pelos discos de grafonola da avó e pela vida bizarra dos vizinhos. Vive com dois gatos e um peixinho vermelho...», texto de entrada da página da Internet dos Deolinda (ver e ouvir mais sobre o grupo e no myspace).

«Há uma longa série de clichés associados ao fado. Por exemplo, o fado tem que ter guitarra portuguesa. Os Deolinda não usam guitarra portuguesa. Ou, o fado tem que ser sisudo, sério, compenetrado, fatalista e triste. Os Deolinda não são nada disso. Ou ainda, o fado não pode ser dançado. E dança-se com os Deolinda. Ou, para terminar, a fadista tem que vestir de preto, como se estivesse no seu próprio funeral. Ana Bacalhau, a voz dos Deolinda (a Deolinda, ela própria?), veste roupas garridas, alegres, coloridas.

Mas os Deolinda são... fado, apesar disso tudo, e são muito mais que fado, por causa disso tudo e de tudo o mais que a sua música contém. Uma música que vai à música popular portuguesa - um universo que aqui abarca José Afonso e António Variações, Sérgio Godinho, Madredeus e os «muito mais que fadistas» Amália Rodrigues e Alfredo Marceneiro - e vai ainda à rembetika grega, à música ranchera mexicana, ao samba, à música havaiana, ao jazz e à pop, numa confluência original e rara de músicas-irmãs ou primas umas das outras e que, nos Deolinda, fazem todo o sentido.» – Prosa de António Pires no "site" dos Deolinda.

Melodias simples e despretensiosas, tocadas por instrumentos acústicos sem grande alarido, letras trocistas cantadas com sentimento barrista por excelente voz!

Saber mais do autor das ilustrações, o não menos fascinante João Fazenda, autor, por exemplo, dos desenhos que acompanham as crónicas semanais, igualmente fantásticas, de Ricardo Araújo Pereira na revista Visão.