31 de janeiro de 2007
Assim não dá...
Além das gravações diárias de vários programas, o Nip Tuck, a Ally McBeal a começar depois das 23 horas, logo seguida pela Grey's Anatomy, não ajudam em nada e a situação piorou bastante nos últimos dias. É que emprestaram-me os seis primeiros episódios da terceira série do Lost, cuja exibição começou em Outubro do ano passado nos Estados Unidos, impecavelmente descarregados da Internet.
E porque é que os (poucos) bons programas dos quatro canais generalistas portugueses só começam quando a maior parte das gentes dorme profundamente? Zzzzz...
29 de janeiro de 2007
O beijo no Cunhal
Filho de pai comunista convicto, daqueles à antiga, era ainda petiz e não falhava umas quantas correrias pelas avenidas da democracia abertas pela Festa do Avante na Ajuda, junto a Monsanto, de lá excomungada pelo insensível Krus Abecassis, antigo presidente da Câmara Municipal de Lisboa, e onde actualmente moram alguns pólos da Universidade Técnica.
Numa dessas visitas ao festim dos "comunas", calhou entrarmos – eu, pai, mãe e mana – na mesma altura que Cunhal o fazia num automóvel. Logo se gerou enorme burburinho entre os visitantes, e os mais velhos apressaram os respectivos rebentos para se meterem na fila que entretanto se formara para beijar o ilustre mártir da ditadura – o homem pacatamente instalado no banco do pendura e as criancinhas todas na osculação.
Bom, todas não, pois a minha irmã, empoleirada na janela oposta do carro, respondeu assim à pergunta do meu pai:
— Então Ana, não vais dar um beijinho ao senhor Cunhal?
— Eu não, respondeu ela refilona no meio da sua genuína inocência. Não o conheço de lado nenhum, rematou. Afinal, sempre lhe ensinaram que não se dão beijos a desconhecidos.
Os brandos costumes
«Salazar governou em ditadura durante quarenta e tal anos; Cunhal só não o fez porque foi impedido pela parte sã da nação. Salazar fez de nós o país mais retrógrado e subdesenvolvido da Europa; Cunhal fez o que pôde para nos transformar numa Albânia. Ainda hoje pagamos a factura, económica e intelectual, das suas heranças. Que grande parte dos portugueses ache que eles são os maiores portugueses de sempre entre nós explica a razão pela qual somos actualmente o mais atrasado país da Europa». Miguel Sousa Tavares, in Expresso (20/01/07)
«Estranho caso o de um país que se revê em Salazar e Cunhal. Um e outro conseguiram arrasar e perverter tudo em que tocaram e estão na origem da maior parte dos problemas de hoje». Vasco Pulido Valente, in Público (28/01/07)
Este último vai mesmo ao ponto de afirmar que o país pensado por ambos «não deixou ainda de existir na cabeça dos portugueses». Também penso assim, embora ninguém o admita publicamente. Parafraseando o grande Eça de Queiroz em 1871, noutras circunstâncias, «o país perdeu a inteligência e a consciência moral». Quando lhe perguntaram a opinião sobre Portugal, o distinto escriba respondeu: «Um país geralmente corrompido – em que aqueles mesmo que sofrem não se indignam por sofrer". As palavras são tão espantosamente actuais que começo a interrogar-me se alguma vez teremos emenda...
26 de janeiro de 2007
Requiem pela FNAC e elogio dos pequenos gestos
Confesso que sofri da doença durante bastante tempo. Não tenho pejo em admitir. Sim, fui "fnacodepende". Mais propriamente desde a abertura do primeiro antro em Portugal, no Colombo, nesse saudoso ano de 1998, de tão gratas memórias para nós, lisboetas.
O problema foi-se agravando de dia para dia e proporcionalmente ao avolumar de dinheiro na minha carteira. Poupar nunca foi o meu forte e, por isso, quanto mais disponibilidade financeira dispunha, aumentava exponencialmente o meu gasto naquilo que mais gostava, principalmente livros e CD's – mas também DVD's, almoços, lanches, petiscadas, jantares, noitadas, viagens... – e com as pessoas de quem mais gostava.
Sempre fui avesso a comprar livros através da Internet. Gosto do prazer de me sentar calmamente nas livrarias e lê-los, tocá-los, afagá-los, cheirá-los, manuseá-los com as minhas próprias minhas mãos. Essa foi, provavelmente – aliada à imensa variedade de opções –, a principal razão pela qual sempre gostei do conceito das lojas FNAC e fui seu frequentador desde a hora inicial. Com o correr dos anos e o aumento das responsabilidades – bicho castrador do prazer –, esses gastos naturalmente diminuíram.
Sem o frenético impulso de outrora, consigo hoje entrar numa FNAC e sair de lá sem ter comprado um único artigo, o que, não há muito tempo, afigurava-se tarefa impossível. Avesso a enchentes, aproveitava para fazer voto de abstinência na histérica altura do Natal, onde nem mesmo os terminais de pagamento rápido self-service, disponíveis no Colombo, conseguiam dar andamento à ânsia de estoirar dinheiro.
Ultimamente, tenho até sentido alguma aversão em entrar numa FNAC, devido ao excessivo, incomodativo e insuportável calor que se faz sentir dentro das lojas, nomeadamente quando faz muito frio lá fora. (Bem, mas para dizer a verdade todos os estabelecimentos do género padecem do mesmo problema!)
Após décadas sem qualquer sinal de melhoras, hoje, mais maduro e selectivo nas escolhas, posso dizer que estou curado. Ainda esta semana aproveitei o facto de apenas começar a trabalhar a seguir ao almoço e deambulei por algumas livrarias da Baixa de Lisboa, antes que fechem, fruto da invasão e da preferência das pessoas por gigantes como a FNAC, entre os quais eu me incluo – ou incluía.
Como é lógico, perdi-me na imensidão daquelas salas antigas, mas fiz questão de comprar um livro em cada uma delas, apesar dos magotes de gente que dantes provocava autênticas romarias restar agora apenas meia dúzia de ingénuos. Garanto que o próximo périplo será pelos alfarrabistas.
Moral da história? Ainda acredito que as imensas minorias fazem a diferença. Às vezes, um pequeno gesto de cada um de nós pode salvar estas riquíssimas livrarias, tão impregnadas de história. Às vezes, um pequeno gesto de cada um de nós, nas acções mais banais do nosso quotidiano, pode salvar o Planeta.
O túmulo de D. Afonso Henriques
O Instituto Português do Património Arquitectónico (IPPAR), fiel zelador da herança dos nossos antepassados, pediu este mês mais esclarecimentos à equipa da antropóloga Eugénia Cunha, da Universidade de Coimbra, sobre o projecto de abertura do túmulo de D. Afonso Henriques, no Mosteiro de Santa Cruz, situado naquela cidade do rio Mondego.
Segundo conta Paulo Moura, na introdução do seu livro 1147, O Tesouro de Lisboa, um relato da conquista da capital assinado por Raul Santo-Varão, espião, agente secreto e cronista, «o objectivo era, através de recolhas de ADN, análises químicas e toxicológicas, TAC e testes de radiocarbono, saber mais sobre a constituição física e a história do primeiro rei de Portugal. No último momento, porém, a abertura do túmulo foi cancelada pelo Governo.Razão oficial: os investigadores não tinham obtido as necessárias autorizações», apesar de a cientista ter na sua posse uma permissão do IPPAR de Coimbra para tal. No início de Agosto, aquela entidade concluiu, em comunicado, que a autorização em causa fora emitida devido a «um erro administrativo e procedimental na condução do processo por parte da direcção regional de Coimbra, ao não submetê-la às devidas ponderações e decisão superiores».
O caso levou a que a ministra da Cultura, Isabel Pires de Lima, emitisse um despacho, nesse mesmo mês, onde definiu as regras de abertura dos túmulos de figuras históricas. Mais tarde, a 16 de Novembro, o segundo pedido, contendo a reformulação do plano para cumprir as novas regras, deu entrada no IPPAR, que teve a partir daí 45 dias para se pronunciar. Sempre no limite legal dos prazos, como convém nestas coisas, fê-lo no final de Dezembro. Escudados no enraizado e secular atavismo da burocracia, os lóbis parece terem atacado em força, pois no início de Janeiro os investigadores coimbrões receberam o pedido para prestar mais esclarecimentos. Quem tem medo da verdade?
Intrigado pela sucessão de acontecimentos, o jornalista, escritor e historiador decidiu investigar. «O que descobri foi surpreendente, embora não o possa revelar na totalidade. Fá-lo-ei quando tiver concluído a investigação e reunido todas as provas. Para já, posso adiantar que dentro do grande túmulo existem duas urnas de madeira. Uma contém a ossada do rei. Quanto à outra, guardou em tempos os restos mortais de Mafalda, esposa de D. Afonso Henriques. Mas já não. Em algum momento, entre o século XV e XXI, o conteúdo da pequena caixa foi substituído. Apesar das notícias oficiais, a investigadora chegou a abrir o túmulo. Contudo, a sua descoberta lançou tal pânico nas autoridades políticas, científicas e religiosas, que toda a operação foi interrompida. Dentro da carcomida urna não havia ossos mas papéis. E antes que fossem confiscados pela polícia ou pelo instituto governamental do património arquitectónico, a cientista tomou uma estranha decisão: entregou à minha guarda todos os manuscritos que encontrou no túmulo. Ignoro porque o fez, ou porque confiou em mim. Antes nunca tivesse tido essa ideia. A responsabilidade que deixou nas minhas mãos é mais pesada do me sentia capaz de suportar. Trata-se de uma dezena de livros, da autoria de um português, nascido na zona de Coimbra no início da década de 1120, chamado Raul Santo-Varão. Isto é certo. Tudo o resto é ainda um mistério. Há no entanto indícios de que os manuscritos, ou parte deles, terão sido entregues, ainda no século XII, a D. Teotónio, fundador e prior do Mosteiro de Santa Cruz, que os terá passado a um sucessor de confiança, e este a um outro e assim sucessivamente. (…) Nada disto é fácil de provar, e ainda menos de explicar. Mas tudo indica que D. Teotónio criou uma corrente, que atravessou a História, para garantir a sobrevivência dos manuscritos daquele que foi o seu amigo e aliado. Na origem dessa espécie de pacto, parece estar um compromisso com certas ideias revolucionárias que na altura surgiram na Europa, e a solidariedade com alguns cristãos portugueses que nasceram e viveram nas regiões ocupadas pelos muçulmanos. (…) Sabe-se que a Europa era atravessada por uma onda de fundamentalismo cristão (…), cujo líder mundial era o abade Bernardo Claraval. Esta ideologia altamente conservadora, que levou à criação da Ordem de Cister, em 1090, e depois à dos Templários, insurgia-se contra o racionalismo embrionário que surgia na Europa através de pensadores como Pedro Abelardo. Estas ordens instalaram-se em Portugal no tempo de D. Afonso Henriques, que adoptou este fundamentalismo como religião para o novo reino. Em troca, Bernardo de Claraval convenceu os cruzados a ajudarem na conquista de Lisboa e o papa a reconhecer a independência de Portugal.Sabe-se também que esta ideologia levou, durante a Reconquista, a uma política de extermínio não só das populações muçulmanas, mas também das cristãs que viviam sob o domínio muçulmano, os moçárabes. A sua língua e linhagem não eram "puras", depois de quatrocentos anos em terras mouras. Por isso se viu neles um perigo de contaminação dos cristãos "verdadeiros" e se optou pela "limpeza étnica". O novo reino, para existir, teria de ser étnico e religiosamente puro. Sabe-se ainda que, ao contrário dos mais altos signatários da Igreja portucalense, D. Teotónio se insurgiu contra este extermínio dos cristãos moçárabes. E que, por essa razão, se desentendeu com a rainha D. Mafalda. Tudo isto é conhecido dos historiadores. O que não se sabia, mas estou em condições de afirmar, é que D. Teotónio protagonizou várias operações, mais ou menos secretas, para tentar salvar os moçárabes. Não o tendo conseguido, empenhou-se pelo menos em que a história desse "genocídio" não fosse esquecida. Eis uma explicação possível para o culto destes manuscritos (…), conservados e por fim depositados junto a Afonso Henriques, na esperança de um dia serem encontrados e lidos. Esse dia talvez tenha chegado cedo demais. Porque Raul Santo-Varão conta histórias que ninguém conhecia, e que põem em causa a forma como conhecemos a História. (…) Contrafeito, mas fiel depositário do espólio de Santo-Varão, documentos de valor inestimável, tenho consciência da missão que, involuntariamente, assumi: divulgar, ainda que leve a vida toda a lutar contra os polícias da cultura, a obra do repórter medieval português».
24 de janeiro de 2007
A justiça cega e estúpida
A onda de indignação cívica e de solidariedade gerada no seguimento da sentença mostra que talvez ainda tenhamos salvação. Na sua obra Ensaios, o historiador António Sérgio observara, há já uns anos, que «do que se carece em Portugal é de verdadeiros cidadãos».
Como este militar que, ao recusar-se entregar a menina, pôs em causa a sua própria liberdade. Querem maior prova de amor do que esta? O juiz achou que não...
23 de janeiro de 2007
O novo rosto de Dante
Em Itália, um grupo de cientistas revelou, na semana passada, o novo rosto do escritor Dante Aligheiri (1265-1321), considerado o pai da língua italiana e autor de A Divina Comédia. Segundo a reconstituição – feita através de novas técnicas de computador a partir do seu crânio, encontrado em 1921 –, o poeta tinha a cara mais redonda e o nariz menos aquilino do que normalmente se supunha.Giovanni Boccaccio, o seu primeiro biógrafo, descreve-o também como tendo «estatura média, rosto longo, nariz aquilino e mandíbulas grandes, com o lábio inferior muito saliente», enquanto nos quadros de Botticelli e Giotto surge com enorme penca e cara longilínea.
«Devolvemos a Dante uma imagem mais humana. Os seus retratos são mais psicológicos do que reais», declarou Giorgio Gruppuioni, antropólogo da Universidade de Bolonha, ao jornal transalpino La Repubblica. Dante nasceu e viveu em Florença, embora mais tarde tivesse sido expulso da cidade devido a questões políticas, o que fez com morresse longe da jóia da Toscana. Por entre o labiríntico centro histórico do burgo fica situada a Casa de Dante, assinalada com um busto do autor na pequena praceta que a ladeia. Por sinal, ainda dos antigos.
