12 de agosto de 2008
A saga continua...
- Olá, pombinha! Esperavas alguém que te fizesse companhia? Tens sorte, já que eu ando à procura duma chavala que queira curtir comigo. Manjei logo que és boazona e se quiseres alinhar numas curvas não te arrependerás porque eu sou capaz de dar a volta ao capacete à mais pintada - falando assim o tunante foi-se aproximando até se encostar a ela.
A rapariga, cheia de medo por aquilo que escutara e pelo mau aspecto do rapaz, fez menção de levantar-se suplicando:
- Por favor, deixe-me em paz. Engana-se no que pensa de mim. Sou uma moça séria a quem a desgraça bateu à porta.
- Ora, minha linda, sem tangas; dizeis sempre isso, mas andais sempre todas ao mesmo; eu já topo o vosso paleio - e o vadiola pôs-lhe um braço pelos ombros.
Revoltada, ela pregou-lhe um safanão e aproveitando o seu desequilíbrio correu para fora do jardim. Olhou para trás, e vendo que ele não desistia de a perseguir, na ânsia de lhe escapar, imprudentemente, tentou atravessar a rua. Em tão má hora que foi colhida por um automóvel que circulava a grande velocidade. Ouviu-se uma travagem brusca acompanhada de estridente chiadeira de pneus. Tudo em vão e num ápice, já que o condutor não conseguiu evitar o acidente. O choque deu-se com muita violência. O corpo da desditosa criatura, projectado alguns metros pelo ar, estatelou-se no outro lado da larga via..."
Nota: Excerto de Casei com a Minha Irmã, à venda nas melhores livrarias por €7,58.
8 de agosto de 2008
4 de agosto de 2008
Palavras mágicas
Eça, Garrett, Pessoa e outros imortais da cultura e das letras portuguesas... Temei!
Sem bem que careça de confirmação, parece que o autor tem uma forma bastante original de terminar os seus romances: com o título da obra em letras maiúsculas!
Cá vai alho!:
- Eu sou freira!, respondeu Maria Teresa, espantada.
- Não!, contrapôs Edmundo. Agora, tu não vestes hábito e a freira morreu quando entrou para o caixão. Deus ressuscitou-te como Maria Teresa, a mãe dos nossos dois filhos!
- Eu dei à luz apenas uma menina, a Adriana, por isso não existe mais nenhum!, rectificou ela.
- E se houvesse também um filho casavas com o pai dele?, indagou Edmundo, esperançado em convencê-la a aceitá-lo.
- Ora, que pergunta!, exclamou Maria Teresa, pensando que ele brincava Se eu tivesse um filho só poderia ser do homem que amasse e, portanto, do meu marido!
- Então, eis o teu filho!
Samuel abraçou-se a ela e, por entre lágrimas, exclamou:
- Mãe! Eu também sou seu filho e de Edmundo. Do seu parto nasceu um casal de gémeos! Aceite o meu pai! Ele ama-a verdadeiramente! Sempre a amou!
Às súplicas de Samuel juntaram-se as de Adriana e, sentindo-se contagiadas, as restantes pessoas que assistiam à cena começaram a pedir alto e com voz ritmada:
- CASA! CASA! CASA! CASA! CASA!...
(...)
Até o Malhado, que salvara Adriana do atentado que Verónica e Marilú lhe haviam preparado e encontrara naquela casa carinho e um abrigo acolhedor, ladrava e abanava a cauda como se quisesse mostrar que concordava com os presentes.
E aquela mulher, a freira mais bonita de sempre do Convento das Cristianas, desejava compartilhar com todos a sua felicidade. Assim, com alguma surpresa para os circunstantes, a sua voz elevou-se como se entoasse uma prece:
- Oh, meu Deus! Eu não mereço tanta ventura! Cumpra-se a Tua vontade!
Seguiu-se uma estrondosa salva de palmas que ecoou pela grande sala.
(...)
Uma nova vida ia começar para aquela que pela sua imensa bondade alcunharam de "santa" e tanto sofrera, mas que por milagre divino se salvara de ser sepultada no cemitério do Convento das Cristianas onde "MATAVAM AS FREIRAS GRÁVIDAS".
31 de julho de 2008
Fina literatura
Quem, como eu, se iniciou nas aventuras musicais da adolescência como autodidacta da viola, decerto tropeçou em alguma ocasião nos livros de solfejo do fascinante Eurico A. Cebolo.Num tempo em que a Internet era ainda uma miragem e frequentar uma escola de música um luxo, os populares e didácticos manuais deste transmontano nascido em 1938 garantiam a qualquer jovem o primeiro contacto com a clave de Sol, as mínimas, breves e semibreves.
Vem isto a propósito de uma reportagem que vi há dias no sociológico, instrutivo e hilariante programa Liga dos Últimos, da RTP N, que versa sobre o futebol distrital e o Portugal profundo, espalhado pelo Mundo. A dada altura, um casal de emigrantes na Holanda que se dedica a propagandear o desporto-rei lusitano, folheava os livros da sua biblioteca quando alguns deles me despertaram a atenção.
E pensar que comecei a aprender o que era a pauta pela cartilha do Cebolo!
O padre Januário é acusado de ter uma filha, Isabel, e de roubar as jóias dos Mendonça que valiam uma fortuna.
Natália foi difamada publicamente e o seu pai, acusado pela morte do sogro, morre assassinado à sacholada.
Duas crianças, trocadas ao nascer, vivem no mesmo palacete onde a rica ocupou a posição da pobre, de quem passa a ser criada, enquanto a pobre tomou o lugar da rica que odeia e maltrata.
Miriam, uma cristã a quem os romanos cegaram e escravizaram, é condenada a morrer queimada, mas uma poderosa força a protege.
Carmencita, a cigana sedutora, lia a sina nas palmas da mão que lhe estendiam, mas não via nelas o segredo do seu nascimento.
A irmã Teresa, a freira mais linda do Convento das Cristianas, descobriu que ali havia um terrível mistério.
Miguel e Damião amavam-se como irmãos e cresceram juntos numa quinta onde um criado os levou a práticas sexuais aberrantes.
O amor de um cego por uma jovem desfigurada. Um cemitério onde um necrófilo profanava os túmulos para violar as mortas.
Maria Alice é dada como morta no desatre ferroviário de Alcafache. O homem que antes a desonrou casa com a própria irmã.
30 de julho de 2008
O susto
E se, de repente, em pleno Verão, um intrigante barulho interrompesse a tranquilidade da leitura do excelente As Mulheres do Meu Pai, de José Eduardo Agualusa, na apetecível esplanada do café da Praia Fluvial da Peneda, sobranceira ao rio Ceira, na pacata vila de Góis?Pois é, não fora a mudança de local, por causa do sol abrasador, e não sei o que poderia ter acontecido quando, lá do alto, se desprenderam vários ramos de uma das árvores, arrastando outros na queda e desabando todos, com estrondo, sobre mesas, cadeiras e estrado de madeira.
Refeito do susto, pude depois completar 15 dias de autêntico retiro na serra com a degustação - a conselho de muito boa gente - do imperdível A Sombra do Vento, de Carlos Ruiz Záfon e Aos Olhos de Deus, de José Manuel Saraiva, romance histórico que relata a espampanante embaixada portuguesa enviada por D. Manuel I ao Papa Leão X (Giovanni di Medici), livro de leitura fácil, simples e honesto.
Depois de um período intenso de trabalho, estava mesmo a precisar de paz e descanso, físico e mental.
Nota: A fotografia, tirada da Ponte Real, mandada construir em 1533 por D. João III, é do site do Góis Moto Clube, responsável pela realização num dos fins-de-semana de Agosto da famosa concentração de amantes das duas rodas.
7 de maio de 2008
6 de maio de 2008
O raio do careca
Sem publicar uma linha há cinco anos, depois de ter lançado o primeiro livro, o bonzão do Mulder - sim, para mim será sempre o Mulder -, cuja vida na solarenga Los Angeles gira à volta da relação com a filha, a ex-mulher e inúmeras outras mulheres, aceitou o desafio do seu empresário, Evan Handler no original, e começou a escrever crónicas num blogue da sua autoria, local que, segundo o careca judeu e marido da Charlotte em O Sexo e a Cidade, apenas sobrevive se mantiver carácter regular.
Lembrei-me logo do estado do meu blogue, pelo que aqui estou, embora não saiba quando volte e por quanto tempo.

