7 de março de 2008

22 de fevereiro de 2008

A luz ao fundo do túnel

Quatro dias depois ter sido reaberto, utilizei primeira vez na quarta-feira o túnel do Rossio. Muitas foras as vezes que entrei de comboio pelo buraco que desagua na Baixa de Lisboa, desde a extinta estação de Santa Cruz de Benfica.

A escuridão deu agora lugar à farta iluminação, os carris já não seguem apoiados em toros de madeira e estes na pedra tão característica das linhas ferroviárias - o chão é agora feito do incaracterístico betão e cimento.

Antigamente, os vidros fronteiros da carruagem eram repartidas entre o habitáculo do condutor da máquina e os passageiros. Em petiz, uma das minha predilecções era atravessar o canal na dianteira e ver os dois buracos de luz ficarem cada vez maiores, até se perderem na imensidão da Estação Central.

Mas hoje, em vez do passo lento, a viagem de Campolide ao Rossio demora apenas quatro minutos e à entrada do derradeiro poiso já não se ouve a chiadeira de outrora, quando as duas linhas se multiplicavam no cais.

O trajecto de Benfica ao centro da capital leva apenas sete minutos, mas há que aproveitar cada um deles, pois o bilhete custa €1,15.

13 de fevereiro de 2008

Levantar a mira

Há uns anos, passeava com uma amiga pela Baixa de Lisboa quando nos detivemos a ver postais da capital num pequeno quiosque da Praça D. João da Câmara - o pequeno largo situado entre o Teatro Nacional D. Maria II e a Estação do Rossio.

Resolvi testá-la e peguei numa das imagens que reproduzia a fachada do terminal dos caminhos-de-ferro, agora reluzente:
- Lisboa é uma cidade muito bonita, não é? E tem edifícios espectaculares, não tem? Olha-me só este...
- É lindo! Onde fica?
- Estás a brincar...
- Não...
- Experimenta levantar a cabeça.

Às vezes, em vez de andarmos cabisbaixos, de olhar preso ao chão, num autismo absoluto, bastava levantar um pouco mais a mira para enxergar melhor a beleza que nos rodeia.

Nota: Agradecimentos ao Fred Lopes pela possibilidade de ilustrar esta prosa com a sua bela fotografia.

11 de fevereiro de 2008

Últimos dias

(Coroação do Imperador Nicolau II e da Imperatriz Alexandra Fiodorovna, da autoria do dinamarquês Tuxen Laurits. Óleo sobre tela, 66x87,5 cm, 1898)


(Coroação do Imperador Alexandre III e da Imperatriz Maria Fiodorovna, da autoria do francês Georges Becker. Óleo sobre tela, 108x156 cm, 1888)

Quem ainda não viu vai ter que se apressar, pois a exposição "Arte e Cultura do Império Russo nas Colecções do Hermitage - De Pedro o Grande, a Nicolau II" termina no final desta semana. Os retratos gigantescos e outras pinturas são o principal atractivo, como os dois quadros que acima divulgo e cujas reproduções podem ser descarregadas aqui.

O pormenor quase fotográfico das telas deixam qualquer alma estarrecida, mas por entre o mobiliário, a ourivesaria, os trajes imperiais, baixelas de prata e ouro e serviços de jantar em porcelana, há uma peça assustadoramente inesquecível, incluída na pomposa mala de farmácia ambulante de Pedro I, O Grande - o dilatador anal do Imperador.

A mostra está patente ao público até 17 de Fevereiro, no Palácio da Ajuda, e tem o seguinte horário:
Domingo a quinta-feira: das 11h00 às 19h00 (última entrada às 18h15);
Sexta-feira e sábado: das 11h00 às 22h00 (última entrada às 21h15).
Fecha à quarta-feira.

4 de fevereiro de 2008

A perereca da Amazónia

Durante muito tempo, desde 1898, o imaginário da criançada e dos graúdos sobre a fauna e flora marítimas foi satisfeito ao vivo apenas pelo Aquário Vasco da Gama.

Cem anos volvidos, a pretexto da Exposição Mundial que decorreu em Lisboa, construiu-se o Oceanário.

Agora, desde Março de 2007, existe o Fluviário de Mora, situado no Parque Ecológico do Gameiro daquela terra do Alto Alentejo - sobranceira ao Ribatejo - e que nos permite observar as espécies animais e vegetais que vivem nos rios, desde a nascente ate à foz.

Não tendo a grandiosidade e o fascínio dos outros dois, merece a pena ser visitado, nomeadamente pelo público mais jovem que vive na capital, da qual dista somente hora e meia e pouco mais de uma centena de quilómetros. Mesmo ao lado fica a praia fluvial, igualmente bem arranjada.

As principais atracções do Fluviário são o irrequieto casal de lontras, baptizadas de Mariza e Cristiano Ronaldo (os nomes Amália e Eusébio já estavam tomados pelas do Oceanário), bem como as carnívoras piranhas e a exótica anaconda.

No entanto, o prémio principal ganhou-o a perereca-não-me-lembro-do-resto-do-nome, minúscula e colorida rã venenosa, cujas patas terminam em ventosas, que habita para os lados da Amazónia.

Mais informação aqui.

Post-scriptum: Pode-se almoçar no próprio Fluviário, num restaurante com vista para as lontras, mas O Afonso, no centro da vila, é de passagem obrigatória para quem quer provar as melhores iguarias da região. (A fotografia do bicharoco é do "site" do Fluviário.)

30 de janeiro de 2008

Fiu-fiuu

A iniciativa tem tanto de inovadora e bem conseguida como de irritante. Os cartazes de publicidade da nova campanha da Sagres - o assobio, ou "fiu-fiuu" -, em pleno cais de embarque das estações do Metropolitano de Lisboa, têm por cima uma pequena caixa com um sensor que emite o som do silvo sempre que alguém passa em frente.

Podem imaginar a chinfrineira daquilo nas paragens mais movimentadas. Noutro dia, enquanto aguardava pacientemente pelo comboio, estive a ponto de despir este meu ar tranquilo e pacifista para, num instante acesso de loucura, dar cabo da maquineta.

Felizmente, acabei por ficar quieto e fui despertado pela chegada das ansiadas carruagens, a deslizarem pelos carris subterrâneos todas presas umas às outras em deprimente filinha indiana, mas que me levariam ao destino.

Não haverá por aí um movimento que poupe os nossos frágeis ouvidos da música natalícia no Chiado, das baladas nos elevadores, das canções nos telefones em espera, dos decibéis altíssimos nas lojas e da televisão ligada aos altos berros nos cafés?

29 de janeiro de 2008

O truque da água na boca

Os meus dotes culinários são bastante limitados, mas farto de verter lágrimas a descascar cebolas, resolvi ontem, enquanto preparava a salada para a janta, experimentar um truque ensinado pelo cozinheiro Chacal.

Enchi a boca com água e, depois de sentidas e vigorosas facadas no bolbo de bochechas inchadas, nada de irritação na vista e nem uma pinga vertida dos meus pequeninos olhos. O fenómeno deve ter explicação plausível...